Caralho. Que sensação horrível. Hoje um conhecido sofreu um acidente. Está no CTI. Em coma. Estava indo trabalhar. De moto. Sempre uma moto. Eu odeio motos. Tenho raiva delas. Como se fosse possível odiar um objeto. Como se fosse culpa do metal e não dessa vida brutal que, de vez em quando, escolhe alguém e simplesmente... atravessa. Tô engasgada. E o mais cruel é que hoje minha aula é sobre planejamento existencial. Planejamento. Que palavra insolente. A gente faz planos. Organiza metas. Compra agenda. Faz terapia. Guarda dinheiro. Escolhe a escola dos filhos. Marca viagem para daqui seis meses. Faz seguro. Faz exame. Cuida da alimentação. Aprende a meditar. Tenta viver certo. E, mesmo assim, basta um segundo. Um. Segundo. Então para que serve o planejamento? E, ao mesmo tempo... como viver sem ele? Esse é o paradoxo que me rasga. A vida é completamente imprevisível, mas a gente precisa agir como se o amanhã existisse. Porque, se não agir, também não vive. A gente constrói uma casa sa...
Vinte e seis anos. Eu continuo contando. E acho curioso que eu ainda tente convencer a mim mesma de que deveria parar. Mas quem foi que inventou esse tal de “deveria”? Eu deveria parar de contar os anos. Deveria deixar de lembrar. Deveria olhar só pra frente como se o amor e a saudade obedecessem a uma lista de regras e deveres… Mas o dever ser é uma das maiores ficções que já inventaram. A vida nunca acontece no lugar do dever. Ela acontece no lugar do possível. Do desejo. Da escolha. Do que conseguimos carregar e do que não conseguimos deixar para trás. O “deveria” é uma palavra curiosa. Quase sempre aparece quando tentamos subjugar a nossa própria humanidade. Como se existisse um jeito moralmente correto de sentir saudade. Um prazo aceitável para amar. Um momento exato em que a memória deveria pedir licença e ir embora. Mas ela não vai. Porque a saudade não responde à disciplina. Responde ao significado. A saudade não sabe o que é dever. O luto também não. Eles simplesmente existem....