Eu uso bloco de notas para escrever durante os meus dias de trabalho. Rabisco ideias. Faço listas. Anoto audiências, tarefas, pensamentos soltos. Talvez por isso eu nunca tenha dado muita importância aos blocos em si. Eles sempre foram apenas o lugar onde as coisas passavam. Recentemente, troquei o bloco que estava usando por um novo que estava guardado em uma gaveta aqui no escritório. Usei a primeira página normalmente. Mas quando virei para a segunda, me deparei com uma letra que provavelmente nunca mais vai escrever nada para mim. E com um recado que ele deixava em praticamente todos os blocos, papéis e cadernos que encontrava ao meu redor: "Pollyanna! Te adoro!!! Você é uma pessoa extraordinária!" É engraçado. Houve um tempo em que encontrar essas palavras era capaz de transformar o meu dia inteiro. Bastava olhar aquela letra redonda, familiar, e eu me sentia amada. Dessa vez não. Dessa vez elas não me fizeram sorrir. Só conseguiram desestabilizar um p...
O ciúme é um veneno que não chega gritando. Ele se infiltra. Primeiro, uma coceira leve, uma dúvida, uma vontade de saber demais. Depois, vem o gosto amargo, o coração acelerado, o olhar que procura pistas até onde só há paz. O ciúme é aquele tipo de planta que nasce pequena, quase invisível, mas quando você percebe, já se enrolou nas paredes, subiu pelos móveis, tomou o ar da casa. E você, que achava que estava apenas cuidando do jardim, percebe que está sendo sufocada por ele. É ácido que corrói de dentro pra fora. Ele não destrói o outro, destrói quem sente. Faz a gente perder o juízo e o equilíbrio, transforma amor em vigilância, carinho em controle, cuidado em prisão. O ciúme é uma ferrugem: silenciosa, lenta, mas fatal. Primeiro atinge o brilho, depois consome a estrutura. E o mais perigoso é que, no começo, ele parece amor. Parece zelo, parece prova de que “se importa”. Mas amor que sufoca não é amor. É medo. Medo de perder, medo de não ser suficiente, medo de ser trocada. E o m...