Pular para o conteúdo principal

Ciúme (09/11/25)

O ciúme é um veneno que não chega gritando. Ele se infiltra. Primeiro, uma coceira leve, uma dúvida, uma vontade de saber demais. Depois, vem o gosto amargo, o coração acelerado, o olhar que procura pistas até onde só há paz. O ciúme é aquele tipo de planta que nasce pequena, quase invisível, mas quando você percebe, já se enrolou nas paredes, subiu pelos móveis, tomou o ar da casa. E você, que achava que estava apenas cuidando do jardim, percebe que está sendo sufocada por ele.

É ácido que corrói de dentro pra fora. Ele não destrói o outro, destrói quem sente. Faz a gente perder o juízo e o equilíbrio, transforma amor em vigilância, carinho em controle, cuidado em prisão. O ciúme é uma ferrugem: silenciosa, lenta, mas fatal. Primeiro atinge o brilho, depois consome a estrutura.

E o mais perigoso é que, no começo, ele parece amor. Parece zelo, parece prova de que “se importa”. Mas amor que sufoca não é amor. É medo. Medo de perder, medo de não ser suficiente, medo de ser trocada. E o medo, quando disfarçado de amor, vira uma arma.

Ciúme é fogo em pano seco: basta uma faísca e tudo vira cinza. E mesmo quando você apaga o incêndio, o cheiro de queimado fica. Fica na memória, na desconfiança, na necessidade de provar o tempo todo que nada está acontecendo. E, ironicamente, o que o ciúme mais teme é exatamente o que ele cria: o afastamento. Porque ninguém quer morar num campo minado, onde cada passo é suspeita.

É por isso que o ciúme, no fim, não é sobre o outro. É sobre o espelho. É sobre o que você enxerga (ou não enxerga) em si. É o reflexo da própria insegurança pedindo socorro, o coração tentando controlar o que não se controla. O ciúme é a prova de que, antes de confiar em alguém, a gente precisa confiar em si.

Porque o ciúme, quando alimentado, mata o amor. E o amor, mesmo verdadeiro, não sobrevive à desconfiança. Ele murcha, como flor regada com veneno.

No fim, o ciúme é isso: uma planta invasora que nasce no terreno do medo e se alimenta da ausência de amor-próprio. E o único antídoto que existe é a confiança. Confiança no outro, mas principalmente em você.

Comentários

Mais Vistas

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!

2022  em palavras: Morte e renascimento. Perdas e recomeços. Tristeza e felicidade. Desamparo e amizade. Eu abraçando a minha dualidade, em um mundo onde nada é simplesmente branco ou preto.  Aquele ditado de que Deus fecha uma porta mas abre uma janela é real demais. Quando vi o mundo desabar, encontrei as melhores pessoas para segurar as paredes que restavam e tijolo por tijolo reconstruir a minha vida. Quando não tive forças para andar, fui carregada por amores que eu nem imaginava quão intensos eram. Quando me vi sozinha, desamparada, tive revezamento de abraços e colos, compreensivos e engraçados me mostrando que eu JAMAIS estaria sozinha. Quando tudo parecia perdido, fui incentivada a tentar de novo, fazer diferente, acreditar e sonhar.  E eu terminei mais um ano agradecendo. Agradecendo por cada uma dessas pessoas que me ajudou a chegar até aqui, cada um desses abraços de conforto, cada um que dedicou tempo e paciência pra me ver levantar, cada um que segurou a min...

Jogando o Jogo do Contente

Ontem eu fiz todos os meus planos para a semana, mês, pro futuro.  Tava motivada a mudar o ritmo da minha vida. Recomeçar.  Acordei hoje arrasada.  Tive um segundo sonho com o Rafael. No primeiro, há uns dias, eu via ele através de um vidro, tentava alcança-lo mas ele não me via, não me ouvia, não me atendia... foi desesperador.  Neste ele terminava comigo, e eu implorava para que ele não fosse embora, não desistisse de nós, que poderíamos consertar qualquer coisa. Mas ele dizia que já era hora e que não dava mais. Ele tava chorando. E eu acordei com esse sentimento horrível com ele terminando comigo.  Minha psicologa disse que é meu inconsciente elaborando essa tragédia. Eu não sei dizer o que é. Só sei que eu acordo destruída. Com a sensação do fim pulsando no meu corpo. As lágrimas saltando dos meus olhos e a solidão me apunhalando o coração. O ar falta, o peito aperta, a dor é física e o pânico parece que vai tomar conta de tudo. Nas primeiras noites sem ele...

Quem é você em "Sex and the City"?

A verdade é que a gente se reconhece nelas, mas isso também nos incomoda... Porque, no fundo, todas somos um pouquinho Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha. Vamos começar com  Carrie Bradshaw , a personagem que nos conquista com seu estilo único e sua habilidade de transformar a vida caótica em colunas deliciosamente irônicas. Mas, por trás de todo o glamour e das roupas de grife, o que mais nos pega em Carrie é sua insegurança quase crônica — e, ao mesmo tempo, irritante. Quem nunca se pegou torcendo para que ela parasse de colocar  Big  como prioridade? Carrie é o tipo de mulher que tropeça, literalmente, nas próprias escolhas, sem nunca conseguir aprender de fato com seus erros. O relacionamento dela com Big é o maior exemplo disso. Ela se entrega, se ilude, se machuca, mas sempre volta. E, sinceramente? Quem nunca passou por isso? O que realmente nos incomoda em Carrie é que, de certa forma, a gente se identifica. Sabemos como é difícil quebrar esse ciclo, como é fác...