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Primavera

Com um ritual silencioso, encerro aqui este mês.

Fecho a porta destes dias que me atravessaram. Dias de tempestade, de perguntas sem resposta, de esperas longas e despedidas difíceis. Dias que me ensinaram que nem toda dor vem para destruir; algumas vêm para revelar.

Hoje eu solto.

Solto os pesos que carreguei além da conta. Solto os vínculos que já cumpriram seu papel. Solto as histórias que insistiam em permanecer abertas dentro de mim.

E peço o mais sincero e profundo perdão a todos que, de alguma forma, foram tocados pelos ventos que me habitaram nos últimos meses.

Fiz o que pude.

E talvez eu tenha podido muito pouco.

Talvez minhas mãos cansadas não tenham alcançado tudo o que eu gostaria de salvar. Talvez minhas forças tenham sido menores do que as circunstâncias exigiam. Mas, ainda assim, entreguei o que tinha. Entreguei a verdade que eu conseguia sustentar naquele momento. Entreguei presença quando pude, coragem quando encontrei e amor mesmo quando ele parecia insuficiente.

Não saio daqui com a pretensão de ter feito tudo certo.

Saio apenas com a paz de quem sabe que foi inteira.

Agora deixo a água seguir seu curso. 

Que ela leve o que já não me pertence. Que carregue as mágoas, os excessos, as expectativas e as versões de futuro que não encontraram morada na realidade.

Que ela siga para o mar, porque rios não foram feitos para voltar à nascente.

E eu também não.

Deixo os dias virem como vêm as manhãs depois das noites mais longas: sem pressa, mas inevitavelmente. Que tragam novos planos, novos projetos, novos encontros, novas possibilidades. Que tragam horizontes que ainda não consigo enxergar, mas que já caminham na minha direção.

Hoje não enterro apenas dores.

Planto sementes.

Porque tudo o que vivi, mesmo o que doeu, adubou a terra de quem estou me tornando.

Por isso sigo.

Com gratidão por tudo o que foi vivido e aprendido. Por tudo o que me fortaleceu. Por tudo o que me mostrou meus limites, minhas sombras e, principalmente, minha capacidade de continuar.

Sigo sem amargura.
Sigo sem carregar os escombros.
Sigo com o coração marcado pela experiência, mas aberto para a beleza do que ainda não aconteceu.

Há ciclos que terminam como o outono: levando embora as folhas que já cumpriram seu tempo.

Mas a árvore não lamenta aquilo que foi.
Ela confia na primavera.
E eu também.

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