Hoje a minha gata derrubou um livro da prateleira. Não foi qualquer livro. Caiu justamente aquele que virou meu amuleto desde que o Rafael morreu: “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, da Rosa Montero. Esse livro, que eu ganhei da prima do Rafael (que no meu coração sempre vai ser também a minha prima Nat) me acompanhou pelas ruas mais tortas do luto. Ele andou comigo quando eu mal conseguia andar sozinha.
Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”.
Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a dor que eu sinto para conseguir senti‑la sem desabar. Aqui eu tento construir, com frases, essa ideia tão absurda, ridícula mesmo, do que é viver, do pra sempre ao nunca mais.
É confuso, ou trágico (não saberia definir), mas a ausência dele me visita em ondas: tem dias em que ela é um mar inteiro, me varre, me afoga, me arrasta para o fundo; tem dias em que é só uma marola que bate de leve no tornozelo e vai embora. Mas ela sempre volta. Ela nunca termina.
Hoje aconteceu outra coisa. Abri o armário e tirei de lá a caixa do meu vestido de noiva. Antes, todo ano eu tirava o vestido para tomar sol, ver se estava tudo certo, se o tecido estava respirando, se o mofo não tinha chegado, se as traças não tinham atacado. Era quase um ritual de manutenção da memória. Desde que o Rafael morreu, eu não tive coragem de tocar naquele objeto. Ele virou uma espécie de cápsula do tempo que eu evitava esbarrar.
Até hoje.
Peguei a caixa, coloquei sobre a cama, levantei a tampa devagar. Vi só um pedaço do tecido. Branco, intacto, parado no tempo. E não consegui continuar. Fechei antes de ver o resto. Era como se o vestido fosse um fragmento de uma história que, às vezes, nem parece ser minha. Como se aquela menina que disse “sim” tivesse existido em outra vida, em outro corpo, em outra dimensão. Mas ela era eu. E aquele vestido, aquele sonho inteiro de futuro, ainda está aqui. Intacto. Guardando uma data que não volta.
Depois disso, o livro caiu no meu colo. Literalmente. E eu não consegui não sentir o peito apertar de saudade. O Rafael era um homem barulhento. Ele preenchia a casa com som, com cheiro, com movimento. A presença dele não passava despercebida: tinha risada espalhada pelos cantos, tinha voz ecoando do corredor, tinha panela fazendo barulho na cozinha, tinha música, tinha passos. Tinha vida.
Quando ele morreu, o que mais me assustou foi o silêncio. Era como se a casa inteira tivesse prendido a respiração. Por semanas, o cheiro dele ficou preso no quarto. Nas roupas, nos travesseiros, em alguns cantos da casa. Eu me agarrava àquele cheiro como quem se agarra a uma borda na beira do abismo. Até que, um dia, ele foi embora também. E eu me lembro exatamente da dor que foi perceber isso: notar que nem o cheiro dele resistia ao tempo. Foi como perdê-lo de novo.
É curioso como essa dor muda de forma. Ela não vai embora, não totalmente. Mas se reorganiza. Ela deixa de ser esse monstro que destrói tudo e passa a ser um hóspede silencioso. O amor e a dor continuam aqui, morando comigo, mas de outro jeito. Menos estridente, mais fundo. Às vezes eu ainda sinto revolta. Ainda penso que ele merecia ter vivido muito mais, que a nossa história era bonita demais para acabar assim, tão de repente, tão trágica. Ainda me pego imaginando versões alternativas da nossa vida: os anos que não tivemos, as conversas que não fizemos, as rugas que não vimos nascer um no outro.
Ao mesmo tempo, quando eu fecho os olhos, eu rezo. Rezo para que ele esteja bem, em algum lugar que eu não conheço. E, nessa oração meio torta, eu converso com ele. Peço que, de onde estiver, ele também se orgulhe da vida que eu segui tocando aqui. E alimento uma esperança meio infantil, meio teimosa: a de que um dia a gente ainda vá se encontrar em algum gramado verde, com uma vista bonita. Que a gente possa sentar lado a lado, num fim de tarde calmo, e conversar sobre tudo o que veio depois. Sobre como, mesmo separados, a nossa vida foi incrível. Sobre como o amor continuou existindo, mesmo depois que a história, oficialmente, terminou.
Talvez escrever seja isso: um jeito meio louco de manter conversas que o mundo diz que já acabaram. Um modo de fingir que, ao organizar a dor em frases, a gente consegue respirar um pouco melhor. Hoje, entre o vestido que eu não consegui tirar da caixa e o livro que caiu no meu colo, eu reafirmei que o luto não é uma fase que se supera; é um lugar onde, de vez em quando, a gente volta para visitar. E, toda vez que eu escrevo aqui, eu sinto que me perco e me encontro, que as palavras me conduzem a entendimentos que eu nem sabia possíveis... o texto vai se formando e é como se um caminho se abrisse a minha frente, para que eu possa correr e uivar como um animal selvagem que não cabe neste mundo.
O Rafael não está mais aqui. Mas o barulho que ele fazia na minha vida continua ecoando em tudo o que eu sou. Talvez seja essa a única forma possível de continuar: transformar em vida aquilo que, de outro jeito, seria insuportável. Fingir, como o poeta, para conseguir sentir. Construir, com palavras, um lugar onde a ideia ridícula de nunca mais vê‑lo ainda possa, de algum modo, ser desafiada. Nem que seja só por alguns parágrafos. Nem que seja só aqui, neste blog, onde eu sigo aprendendo a ser viúva e, estranhamente, a continuar viva.
Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”.
Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a dor que eu sinto para conseguir senti‑la sem desabar. Aqui eu tento construir, com frases, essa ideia tão absurda, ridícula mesmo, do que é viver, do pra sempre ao nunca mais.
Tem outro pedaço do livro que ficou tatuado em mim. Rosa cita o diário de Marie Curie, em 11 de maio de 1906. Marie escreve para o marido morto:
“Meu Pierre, levanto depois de ter dormido bem, relativamente tranquila, passado apenas um quarto de hora de tudo isso, e vê só: mais uma vez, tenho vontade de uivar como um animal selvagem.”
Quando eu li isso a primeira vez, eu tive certeza de que não estava sozinha. A sensação era que estávamos ali, as três: Marie Curie, Rosa Montero e eu. Três viúvas conversando, cada uma de um tempo, cada uma de um país, mas falando a mesma língua: a língua de quem sabe que não existe palavra que dê conta dessa falta. Cada frase fazia, e ainda faz, muito sentido pra mim. E eu sigo achando que, por mais que o tempo passe, as pessoas que a gente ama sempre vão fazer falta. Porque, no fundo, elas deviam estar aqui. A vida teria sido mais justa se elas ainda estivessem aqui.
“Meu Pierre, levanto depois de ter dormido bem, relativamente tranquila, passado apenas um quarto de hora de tudo isso, e vê só: mais uma vez, tenho vontade de uivar como um animal selvagem.”
Quando eu li isso a primeira vez, eu tive certeza de que não estava sozinha. A sensação era que estávamos ali, as três: Marie Curie, Rosa Montero e eu. Três viúvas conversando, cada uma de um tempo, cada uma de um país, mas falando a mesma língua: a língua de quem sabe que não existe palavra que dê conta dessa falta. Cada frase fazia, e ainda faz, muito sentido pra mim. E eu sigo achando que, por mais que o tempo passe, as pessoas que a gente ama sempre vão fazer falta. Porque, no fundo, elas deviam estar aqui. A vida teria sido mais justa se elas ainda estivessem aqui.
É confuso, ou trágico (não saberia definir), mas a ausência dele me visita em ondas: tem dias em que ela é um mar inteiro, me varre, me afoga, me arrasta para o fundo; tem dias em que é só uma marola que bate de leve no tornozelo e vai embora. Mas ela sempre volta. Ela nunca termina.
Hoje aconteceu outra coisa. Abri o armário e tirei de lá a caixa do meu vestido de noiva. Antes, todo ano eu tirava o vestido para tomar sol, ver se estava tudo certo, se o tecido estava respirando, se o mofo não tinha chegado, se as traças não tinham atacado. Era quase um ritual de manutenção da memória. Desde que o Rafael morreu, eu não tive coragem de tocar naquele objeto. Ele virou uma espécie de cápsula do tempo que eu evitava esbarrar.
Até hoje.
Peguei a caixa, coloquei sobre a cama, levantei a tampa devagar. Vi só um pedaço do tecido. Branco, intacto, parado no tempo. E não consegui continuar. Fechei antes de ver o resto. Era como se o vestido fosse um fragmento de uma história que, às vezes, nem parece ser minha. Como se aquela menina que disse “sim” tivesse existido em outra vida, em outro corpo, em outra dimensão. Mas ela era eu. E aquele vestido, aquele sonho inteiro de futuro, ainda está aqui. Intacto. Guardando uma data que não volta.
Depois disso, o livro caiu no meu colo. Literalmente. E eu não consegui não sentir o peito apertar de saudade. O Rafael era um homem barulhento. Ele preenchia a casa com som, com cheiro, com movimento. A presença dele não passava despercebida: tinha risada espalhada pelos cantos, tinha voz ecoando do corredor, tinha panela fazendo barulho na cozinha, tinha música, tinha passos. Tinha vida.
Quando ele morreu, o que mais me assustou foi o silêncio. Era como se a casa inteira tivesse prendido a respiração. Por semanas, o cheiro dele ficou preso no quarto. Nas roupas, nos travesseiros, em alguns cantos da casa. Eu me agarrava àquele cheiro como quem se agarra a uma borda na beira do abismo. Até que, um dia, ele foi embora também. E eu me lembro exatamente da dor que foi perceber isso: notar que nem o cheiro dele resistia ao tempo. Foi como perdê-lo de novo.
É curioso como essa dor muda de forma. Ela não vai embora, não totalmente. Mas se reorganiza. Ela deixa de ser esse monstro que destrói tudo e passa a ser um hóspede silencioso. O amor e a dor continuam aqui, morando comigo, mas de outro jeito. Menos estridente, mais fundo. Às vezes eu ainda sinto revolta. Ainda penso que ele merecia ter vivido muito mais, que a nossa história era bonita demais para acabar assim, tão de repente, tão trágica. Ainda me pego imaginando versões alternativas da nossa vida: os anos que não tivemos, as conversas que não fizemos, as rugas que não vimos nascer um no outro.
Ao mesmo tempo, quando eu fecho os olhos, eu rezo. Rezo para que ele esteja bem, em algum lugar que eu não conheço. E, nessa oração meio torta, eu converso com ele. Peço que, de onde estiver, ele também se orgulhe da vida que eu segui tocando aqui. E alimento uma esperança meio infantil, meio teimosa: a de que um dia a gente ainda vá se encontrar em algum gramado verde, com uma vista bonita. Que a gente possa sentar lado a lado, num fim de tarde calmo, e conversar sobre tudo o que veio depois. Sobre como, mesmo separados, a nossa vida foi incrível. Sobre como o amor continuou existindo, mesmo depois que a história, oficialmente, terminou.
Talvez escrever seja isso: um jeito meio louco de manter conversas que o mundo diz que já acabaram. Um modo de fingir que, ao organizar a dor em frases, a gente consegue respirar um pouco melhor. Hoje, entre o vestido que eu não consegui tirar da caixa e o livro que caiu no meu colo, eu reafirmei que o luto não é uma fase que se supera; é um lugar onde, de vez em quando, a gente volta para visitar. E, toda vez que eu escrevo aqui, eu sinto que me perco e me encontro, que as palavras me conduzem a entendimentos que eu nem sabia possíveis... o texto vai se formando e é como se um caminho se abrisse a minha frente, para que eu possa correr e uivar como um animal selvagem que não cabe neste mundo.
O Rafael não está mais aqui. Mas o barulho que ele fazia na minha vida continua ecoando em tudo o que eu sou. Talvez seja essa a única forma possível de continuar: transformar em vida aquilo que, de outro jeito, seria insuportável. Fingir, como o poeta, para conseguir sentir. Construir, com palavras, um lugar onde a ideia ridícula de nunca mais vê‑lo ainda possa, de algum modo, ser desafiada. Nem que seja só por alguns parágrafos. Nem que seja só aqui, neste blog, onde eu sigo aprendendo a ser viúva e, estranhamente, a continuar viva.
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