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Paz é parar de lutar contra a realidade

Tem uma fase do término que ninguém explica direito.
A fase em que você já entendeu racionalmente que a relação acabou, que não fazia bem, que os dois estavam se machucando… mas emocionalmente ainda vive como se estivesse esperando alguma coisa voltar.

Uma mensagem.
Um arrependimento.
Uma versão da história em que tudo finalmente faça sentido.

E talvez o mais difícil de aceitar seja isso: algumas pessoas realmente conseguem ir embora sem olhar pra trás. Enquanto outras revisitam conversas, lembram de detalhes, tentam entender onde exatamente tudo desandou… 

E eu acho que isso aconteceu com a gente. Perceber que o amor que eu sentia não existia aí do outro lado me quebrou inteira... mas a verdade é que você não gostava de mim, não o suficiente pra ficar. E você disse isso: "eu não te amo". Essa frase, esse momento, ficou ecoando na minha mente, em looping... acho que você nem precisava ter dito isso. Se você ia embora, porque ser tão cruel? Mas enfim... você já foi.
E eu continuei aqui.
Sentindo falta.
Pensando em você no primeiro e no último silêncio do dia.
Procurando sentido na ausência.

Durante um tempo eu achei que a minha dor era sinal de fraqueza. Como se sofrer demais fosse uma prova de que eu tinha falhado. Como se quem sente mais amasse errado. Como posso querer tanto alguém que disse que não me ama?

Mas hoje eu acho que não.
Acho que algumas pessoas simplesmente sentem até o fim. E isso não é vergonha.
Vergonha seria eu abandonar a mim mesma só pra parecer forte.
Eu quase fiz isso.
Quase transformei minha dor em cinismo. Quase endureci. Quase me convenci de que amar profundamente era humilhante. Mas não é. O humilhante teria sido me trair e trair o que eu sentia.

Porque nós dois estávamos cansados.
Você cansado de se sentir inseguro.
Eu cansada de me sentir observada, medida, interpretada o tempo inteiro.

Aí o sentir começou a virar defesa.
Depois virou desgaste.
Depois virou silêncio.

E existe algo muito cruel em relações assim: ninguém consegue apontar exatamente o momento em que o carinho começa a se transformar em tensão. Só percebe quando já está vivendo em estado de alerta dentro da própria história de amor.

Eu tentei salvar. Você também tentou. Mas chega uma hora em que duas pessoas feridas começam a se ferir ainda mais tentando permanecer.
E talvez ir embora tenha sido o ato mais generoso que você teve comigo.
Porque ficar sem conseguir amar direito também é uma forma de traição.

Hoje eu percebo que encerrar um ciclo não é matar o sentimento na marra. Não é acordar indiferente. Não é apagar memórias. Encerrar é aceitar que amor nenhum deveria exigir o desaparecimento, tensão, insegurança.
É parar de romantizar sofrimento. Parar de transformar ausência em esperança. Parar de negociar por alguém que já decidiu partir.

E acho que finalmente comecei a entender uma coisa importante: paz não é esquecer alguém.
Paz é parar de lutar contra a realidade.
Você foi.
Eu fiquei.
Doeu. Ainda dói às vezes.

Mas pela primeira vez eu consigo olhar pra tudo isso sem sentir vontade de correr atrás, explicar mais uma vez, tentar ser compreendida, tentar convencer alguém a ficar.
Porque o amor não pode ser convencido.
E talvez o verdadeiro recomeço aconteça exatamente no momento em que a gente para de perguntar “por que ele não ficou?”… e começa a perguntar:

“qual o teu sonho de hoje, alma?”

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