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É minha culpa?

Tenho orgulho de mim.
E talvez essa seja uma das frases mais difíceis que já precisei dizer olhando no espelho.

Porque apesar de tudo… eu tô seguindo.
Sigo trabalhando.
Estudando.
Treinando.
Levantando da cama nos dias em que meu corpo parece feito de concreto e minha mente só quer silêncio.
E eu até tive silêncio… um silêncio ensurdecedor do único lugar de onde eu queria ouvir alguma coisa.

A Ana comentou que conversou com meu irmão, uns meses atrás, porque estava estranhando meu comportamento. Disse que eu sou uma pessoa falante… e que meu silêncio estava preocupando ela. Ela já sabia que algo tinha quebrado antes mesmo de eu perceber. Engraçado como quem realmente nos conhece… nos conhece.
Tem gente que percebe quando o nosso riso muda de temperatura.
Quando a gente pára de ocupar espaço.
Quando começa a sobreviver baixinho.

Eu tive momentos ruins pra caramba. Outros ainda piores.
Mas também tive colo.
O carinho das minhas amigas.
A mão do meu irmão quando eu não conseguia andar sozinha.
A presença de quem ficou sem exigir que eu estivesse bem.
Quem me amou quando eu achava impossível ser amada.

E essa semana eu revisitei tudo.
Cada escolha.
Cada briga.
Cada silêncio.
Cada reação.
Tentando encontrar a minha culpa nisso tudo.
Como se, encontrando culpa suficiente, eu encontrasse também controle.

E aí, ironicamente, tive uma aula no grupo feminino sobre culpa.

Foi dito algo que me atravessou inteira: atribuir a si mesma a culpa de tudo é uma tentativa desesperada de manter o controle.
Porque se a culpa é minha… então eu poderia ter evitado.
Eu poderia ter mudado.
Eu teria poder sobre o desfecho.


Mas algumas coisas simplesmente são como são.

Existe uma culpa hegemônica.
Aquela culpa que a mulher absorve porque a narrativa dominante coloca ela nesse lugar.
A mulher que se culpa pelo fim do casamento.
Pela família desfeita.
Pelo comportamento do outro.
Pela dor dos filhos.
Pela raiva alheia.
Pela violência que sofreu.
Como se ela tivesse a obrigação moral de salvar tudo ao redor dela.
Até porque, o erro custa caro pra mulher. Muito caro. Por isso algumas mulheres preferem acertar do que viver.
Porque viver exige correr o risco de ser mal vista. Mal interpretada. Rejeitada.
E a culpa vira reguladora.
Um mecanismo quase automático de correção: “volta pro lugar”, "não seja tanto", "não vista isso", "não ame demais", "não seja sexy", "não deseje", “não incomode”, “aguenta mais um pouco”, “se adapta”.

Lacan diz uma coisa que não sai da minha cabeça: a única culpa que existe é trair meu próprio desejo. E desejo, aqui, não é capricho. É aquela pulsão que te torna quem você é. É aquilo que você não pode não ser. O desejo não é um quererzinho passageiro. É a expressão da sua singularidade. Aquilo que pulsa e faz da gente quem a gente é. Ceder a ele, manter-se fiel, seria um ato de responsabilidade ética consigo mesma.
E por isso, a pior traição é abandonar a si mesma pra continuar correspondendo.
Porque a verdade é que a gente só se sente tão culpada assim quando está tentando desesperadamente caber.
E eu acho que foi isso que mais me destruiu em alguns momentos: tentar caber em lugares que exigiam meu desaparecimento.

Todos nós temos partes egoístas, narcísicas, violentas.
E dá um trabalho infernal olhar pra isso e fazer alguma coisa com esse reflexo.
Mas existe diferença entre reconhecer os próprios erros e carregar culpas que nunca foram suas.
Responsabilidade é diferente de culpa. A culpa paralisa, a responsabilidade mobiliza.

É importante entender e aceitar que nem tudo que é necessário é pacífico.
Nem tudo que segue o nosso desejo vem acompanhado de alívio.
Às vezes vem angústia.
Às vezes vem luto.
Às vezes vem solidão.
Porque não existe liberdade sem ruptura.
E não existe escolha sem risco.
A gente nunca tem garantia do efeito das próprias escolhas. Nem na maternidade. Nem no amor. Nem na vida.

Eu escolhi viver em vez de acertar. Escolhi meu desejo em vez de minha reputação.
E agora eu tenho que viver com a angústia dessa escolha. Não com a culpa. A culpa é uma mentira que eu conto para mim mesma, como se eu estivesse no controle de tudo, e não estou.

Mas eu percebi uma coisa importante:
eu sobrevivi aos dias que achei que não sobreviveria.
E talvez eu esteja começando a entender que orgulho não é sobre fazer tudo certo.
É sobre não ter abandonado a mim mesma no meio do caos. 
E eu deveria, sim, estar orgulhosa.









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