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Caber (01/11/25)

houve um lugar — e não foi metáfora, foi morada. um lugar onde eu cabia inteira, com todas as minhas camadas e contradições. onde minha intensidade não era um exagero a ser contido, mas um incêndio a ser admirado. onde o som do meu caos não incomodava, apenas se misturava com o barulho bom da vida compartilhada. um lugar que não pedia que eu diminuísse o tom, que não me olhava com susto quando eu sentia demais.


ali, eu não precisava aparar as bordas, não precisava ensaiar a leveza ou medir a entrega. eu podia ser o que sou — exagero, urgência, descompasso. e nada disso soava demais. o amor não era performance, era espaço. um espaço que se alargava pra me caber.

talvez seja isso que eu ande procurando, mesmo quando disfarço de outros nomes — reciprocidade, maturidade, equilíbrio. o que eu quero, no fundo, é aquele lugar onde o “demais” vira medida certa, onde a “intensidade” encontra respiro. não quero mais caber pela metade. quero de novo sentir que posso existir inteira, sem susto, sem medo, sem precisar me encolher pra continuar sendo amada.

porque eu sei o que é isso. eu já estive lá. e desde então, tudo o que me resta é procurar aquele tipo raro de paz: a de ser demais e ainda assim, caber.


ps.
a falta de letras maiúsculas não foi um erro. 
a ausência das maiúsculas conversa exatamente com a entrega do texto: é como se tudo se derramasse, sem hierarquia, sem rigidez, sem necessidade de começar com força, só… fluir.

porque eu sinto como se tudo em mim tivesse aprendido a se derramar. sem hierarquia, sem rigidez, sem necessidade de começar com força. só fluir. e, às vezes, eu acho que é exatamente isso que me confunde: essa entrega que não tem borda, esse jeito de sentir que não cabe em linha reta. parece que as palavras, e eu com elas, também se deitam, como quem se rende.

há dias em que penso que isso é beleza. ser intensa é viver sem economia, é tocar as coisas com o corpo inteiro, é mergulhar sem medo do fundo. mas, em outros dias, essa mesma entrega me pesa. porque o que transborda, molha. e nem todo mundo quer se molhar comigo.

fico me perguntando se viver desse jeito é coragem ou teimosia. se é potência ou carência. se é virtude ou vício. talvez seja tudo isso junto, e talvez não precise caber em uma definição. o fato é que, eu vivo, e tudo em mim é fogo: o pensamento, o corpo, o tempo. mas, às vezes, eu fico com essa sensação de ter ido longe demais, de ter deixado pedaços meus espalhados pelo caminho.

mas, ao mesmo tempo, eu sei: existem lugares onde eu caibo inteira. lugares que se alargam, não pra me conter, mas pra me acolher, onde o meu caos não é ameaça, é música. e é isso que busco em todas as minhas relações: esse poder ser inteira sem culpa.

é disso que se trata, no fim. não quero mais aparar as minhas beiradas pra caber. quero frequentar lugares — dentro ou fora, amizades e paixões — onde eu e o meu transbordo sejamos bem-vindos. onde sentir muito não precise de tradução. onde as palavras, e eu, possamos apenas… nos deitar.

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