Vinte e seis anos.
Eu continuo contando. E acho curioso que eu ainda tente convencer a mim mesma de que deveria parar.
Mas quem foi que inventou esse tal de “deveria”?
Eu deveria parar de contar os anos. Deveria deixar de lembrar. Deveria olhar só pra frente como se o amor e a saudade obedecessem a uma lista de regras e deveres…
Mas o dever ser é uma das maiores ficções que já inventaram.
A vida nunca acontece no lugar do dever. Ela acontece no lugar do possível. Do desejo. Da escolha. Do que conseguimos carregar e do que não conseguimos deixar para trás.
O “deveria” é uma palavra curiosa. Quase sempre aparece quando tentamos subjugar a nossa própria humanidade.
Como se existisse um jeito moralmente correto de sentir saudade. Um prazo aceitável para amar. Um momento exato em que a memória deveria pedir licença e ir embora.
Mas ela não vai.
Porque a saudade não responde à disciplina. Responde ao significado. A saudade não sabe o que é dever. O luto também não. Eles simplesmente existem.
Talvez a vida não seja sobre cumprir o que deveria ter sido. Talvez seja sobre sustentar, com alguma coragem, aquilo que é.
Sinto saudade, sinto raiva, sinto amor, sinto gratidão, e quase sempre me perco na pergunta mais inútil e mais humana que existe: e se?
E se aquele domingo não tivesse acontecido?
E se, no nosso primeiro término, nós simplesmente não tivéssemos terminado?
E se, nas tantas idas e vindas, tivéssemos escolhido ficar?
E se tivéssemos nos casado antes?
E se a vida tivesse nos dado mais tempo?
A verdade é que eu queria mais tempo.
Há espaço para amar a vida que sonhamos e amar a vida que nos encontrou.
Porque uma não apaga a outra. Elas coabitam em mim.
A mulher que existe hoje, só existe porque um dia existiu aquela menina que conheceu um garoto e começou uma história que permanece há vinte e seis anos dentro dela. Ainda que por fora o mundo mude, vibre, amplie, aconteça.
E talvez seja isso que o amor faça quando é verdadeiro. Ele nem sempre permanece na nossa vida. Mas permanece para sempre naquilo que nos tornamos.
Eu continuo contando. E acho curioso que eu ainda tente convencer a mim mesma de que deveria parar.
Mas quem foi que inventou esse tal de “deveria”?
Eu deveria parar de contar os anos. Deveria deixar de lembrar. Deveria olhar só pra frente como se o amor e a saudade obedecessem a uma lista de regras e deveres…
Mas o dever ser é uma das maiores ficções que já inventaram.
A vida nunca acontece no lugar do dever. Ela acontece no lugar do possível. Do desejo. Da escolha. Do que conseguimos carregar e do que não conseguimos deixar para trás.
O “deveria” é uma palavra curiosa. Quase sempre aparece quando tentamos subjugar a nossa própria humanidade.
Como se existisse um jeito moralmente correto de sentir saudade. Um prazo aceitável para amar. Um momento exato em que a memória deveria pedir licença e ir embora.
Mas ela não vai.
Porque a saudade não responde à disciplina. Responde ao significado. A saudade não sabe o que é dever. O luto também não. Eles simplesmente existem.
Talvez a vida não seja sobre cumprir o que deveria ter sido. Talvez seja sobre sustentar, com alguma coragem, aquilo que é.
E aquilo que é, é a contradição, é o contraste, é o contrassenso, é a incoerência. É tudo aquilo que nos torna falhos, deficientes e belos: é a humanidade. Com nossas pulsões mais sujas e puras, misturadas e complementares…
Vinte e seis anos desde que nossa história começou, cheia de falhas, desejos e pulsões. Uma história da qual eu corri, mas que sempre me atravessava, em todas as esquinas que eu virava. E ainda me atravessa. Tropeça em mim como se eu fosse desleixada. Se mostra em cada curva como se eu a procurasse. Está sempre na linha de chegada do meu caminho e eu acabo sempre voltando pra ela.
Vinte e seis anos desde que nossa história começou, cheia de falhas, desejos e pulsões. Uma história da qual eu corri, mas que sempre me atravessava, em todas as esquinas que eu virava. E ainda me atravessa. Tropeça em mim como se eu fosse desleixada. Se mostra em cada curva como se eu a procurasse. Está sempre na linha de chegada do meu caminho e eu acabo sempre voltando pra ela.
Sinto saudade, sinto raiva, sinto amor, sinto gratidão, e quase sempre me perco na pergunta mais inútil e mais humana que existe: e se?
E se aquele domingo não tivesse acontecido?
E se, no nosso primeiro término, nós simplesmente não tivéssemos terminado?
E se, nas tantas idas e vindas, tivéssemos escolhido ficar?
E se tivéssemos nos casado antes?
E se a vida tivesse nos dado mais tempo?
A verdade é que eu queria mais tempo.
Tempo pra te beijar demorado e olhar seu corpo tranquilo dormindo ao meu lado.
Tempo pra rir durante o café, pra achar ruim as suas piadas, pra tirar sua bota de trabalho resmungando do tanto que você era folgado.
Eu queria mais tempo…
Tempo para realizar aquela viagem.
Tempo para descobrir como seriam nossos cabelos brancos. Tempo para a mudança para a praia que tantas vezes imaginamos. Tempo para ver a casa cheia de amigos, agregados, netos, dias comuns que hoje me parecem o maior dos luxos.
E, às vezes, eu habito essa vida que nunca existiu com uma nitidez impressionante. Como se, em algum lugar, ela tivesse acontecido, ela estivesse acontecendo.
Tempo para descobrir como seriam nossos cabelos brancos. Tempo para a mudança para a praia que tantas vezes imaginamos. Tempo para ver a casa cheia de amigos, agregados, netos, dias comuns que hoje me parecem o maior dos luxos.
E, às vezes, eu habito essa vida que nunca existiu com uma nitidez impressionante. Como se, em algum lugar, ela tivesse acontecido, ela estivesse acontecendo.
Eu sinto seu cheiro, eu gargalho ao seu lado, falo do óculos que agora você precisa, e do cabelo farto, mas branco. A gente ri das nossas rugas e com um saudosismo grato relembra nossos dias de juventude…
Mas existe outro lugar que também me desconcerta: a vida que eu habito e que, hoje, também parece minha. Ela também é bonita. Também é verdadeira. Também me trouxe pessoas, descobertas, coragem, livros, viagens, silêncios e uma mulher que eu talvez nunca tivesse conhecido se o caminho tivesse sido outro.
E essas duas vidas não têm absolutamente nada em comum.
Uma foi construída ao seu lado. A outra começou justamente quando eu precisei aprender a viver sem você.
São estranhas uma para a outra. Quase incompatíveis.
E, ainda assim, as duas me pertencem. Ainda assim as duas tem EU comum.
Durante muito tempo achei que precisava escolher entre elas: ou honrar o que vivi, ou abraçar o que vivo. Como se amar o presente fosse uma forma de abandonar o passado. Ou como se sentir saudade fosse uma incapacidade de estar feliz.
Hoje eu acho que não.
Talvez a sabedoria seja justamente descobrir que o coração não trabalha na lógica da exclusão. Ele amplia.
Há espaço para sentir falta da vida que aconteceu e, ao mesmo tempo, agradecer profundamente pela vida que existe.
Mas existe outro lugar que também me desconcerta: a vida que eu habito e que, hoje, também parece minha. Ela também é bonita. Também é verdadeira. Também me trouxe pessoas, descobertas, coragem, livros, viagens, silêncios e uma mulher que eu talvez nunca tivesse conhecido se o caminho tivesse sido outro.
E essas duas vidas não têm absolutamente nada em comum.
Uma foi construída ao seu lado. A outra começou justamente quando eu precisei aprender a viver sem você.
São estranhas uma para a outra. Quase incompatíveis.
E, ainda assim, as duas me pertencem. Ainda assim as duas tem EU comum.
Durante muito tempo achei que precisava escolher entre elas: ou honrar o que vivi, ou abraçar o que vivo. Como se amar o presente fosse uma forma de abandonar o passado. Ou como se sentir saudade fosse uma incapacidade de estar feliz.
Hoje eu acho que não.
Talvez a sabedoria seja justamente descobrir que o coração não trabalha na lógica da exclusão. Ele amplia.
Há espaço para sentir falta da vida que aconteceu e, ao mesmo tempo, agradecer profundamente pela vida que existe.
Há espaço para amar a vida que sonhamos e amar a vida que nos encontrou.
Porque uma não apaga a outra. Elas coabitam em mim.
A mulher que existe hoje, só existe porque um dia existiu aquela menina que conheceu um garoto e começou uma história que permanece há vinte e seis anos dentro dela. Ainda que por fora o mundo mude, vibre, amplie, aconteça.
E talvez seja isso que o amor faça quando é verdadeiro. Ele nem sempre permanece na nossa vida. Mas permanece para sempre naquilo que nos tornamos.
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