Pular para o conteúdo principal

Eu queria que ele parasse de me procurar.

Eu queria que ele parasse de me procurar.
Ou me achasse de vez.

Porque existe um tipo de ausência que dói menos do que uma presença pela metade.

Tem gente que vai embora. E tudo bem. A dor da despedida, por mais cruel que seja, um dia encontra um lugar para descansar. O problema é quem nunca vai embora de verdade. Quem aparece quando sente saudade, desaparece quando sente medo e volta quando percebe que você está conseguindo seguir.

É como viver com uma porta que nunca fecha e nunca abre completamente.

Você não sabe se espera, se esquece, se responde, se bloqueia, se interpreta o silêncio ou a mensagem de "oi, sumida" enviada às onze da noite.

E, aos poucos, a sua vida começa a girar em torno das migalhas de alguém que nunca teve coragem de oferecer um banquete.

Talvez o que eu deseje não seja nem ele.
Talvez eu deseje o fim dessa espera invisível.
Porque ser escolhida pela metade é uma forma muito silenciosa de rejeição.
Então eu queria que ele parasse de me procurar...
Ou me achasse de vez.

Que tivesse coragem de chegar sem reservas, sem plano de fuga, sem deixar uma mala pronta ao lado da porta.
Porque amor não é um jogo de esconde-esconde entre dois adultos.
Quem quer, encontra.
Quem encontra, fica.
E quem vive apenas procurando talvez nunca tenha, de fato, desejado encontrar.

Enquanto isso, eu sigo fazendo a única escolha que depende de mim: parar de me perder esperando que alguém finalmente decida me achar.

Comentários

Mais Vistas

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!

2022  em palavras: Morte e renascimento. Perdas e recomeços. Tristeza e felicidade. Desamparo e amizade. Eu abraçando a minha dualidade, em um mundo onde nada é simplesmente branco ou preto.  Aquele ditado de que Deus fecha uma porta mas abre uma janela é real demais. Quando vi o mundo desabar, encontrei as melhores pessoas para segurar as paredes que restavam e tijolo por tijolo reconstruir a minha vida. Quando não tive forças para andar, fui carregada por amores que eu nem imaginava quão intensos eram. Quando me vi sozinha, desamparada, tive revezamento de abraços e colos, compreensivos e engraçados me mostrando que eu JAMAIS estaria sozinha. Quando tudo parecia perdido, fui incentivada a tentar de novo, fazer diferente, acreditar e sonhar.  E eu terminei mais um ano agradecendo. Agradecendo por cada uma dessas pessoas que me ajudou a chegar até aqui, cada um desses abraços de conforto, cada um que dedicou tempo e paciência pra me ver levantar, cada um que segurou a min...

Jogando o Jogo do Contente

Ontem eu fiz todos os meus planos para a semana, mês, pro futuro.  Tava motivada a mudar o ritmo da minha vida. Recomeçar.  Acordei hoje arrasada.  Tive um segundo sonho com o Rafael. No primeiro, há uns dias, eu via ele através de um vidro, tentava alcança-lo mas ele não me via, não me ouvia, não me atendia... foi desesperador.  Neste ele terminava comigo, e eu implorava para que ele não fosse embora, não desistisse de nós, que poderíamos consertar qualquer coisa. Mas ele dizia que já era hora e que não dava mais. Ele tava chorando. E eu acordei com esse sentimento horrível com ele terminando comigo.  Minha psicologa disse que é meu inconsciente elaborando essa tragédia. Eu não sei dizer o que é. Só sei que eu acordo destruída. Com a sensação do fim pulsando no meu corpo. As lágrimas saltando dos meus olhos e a solidão me apunhalando o coração. O ar falta, o peito aperta, a dor é física e o pânico parece que vai tomar conta de tudo. Nas primeiras noites sem ele...

A ridícula ideia de nunca mais te ver

Hoje a minha gata derrubou um livro da prateleira. Não foi qualquer livro. Caiu justamente aquele que virou meu amuleto desde que o Rafael morreu: “A ridícula ideia de nunca mais te ver” , da Rosa Montero. Esse livro, que eu ganhei da prima do Rafael (que no meu coração sempre vai ser também a minha prima Nat) me acompanhou pelas ruas mais tortas do luto. Ele andou comigo quando eu mal conseguia andar sozinha. Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”. Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a d...