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O amanhã nunca nos foi prometido

Caralho.
Que sensação horrível.
Hoje um conhecido sofreu um acidente. Está no CTI. Em coma.
Estava indo trabalhar. De moto.

Sempre uma moto.
Eu odeio motos. Tenho raiva delas. Como se fosse possível odiar um objeto. Como se fosse culpa do metal e não dessa vida brutal que, de vez em quando, escolhe alguém e simplesmente... atravessa.

Tô engasgada.
E o mais cruel é que hoje minha aula é sobre planejamento existencial.

Planejamento.
Que palavra insolente.
A gente faz planos. Organiza metas. Compra agenda. Faz terapia. Guarda dinheiro. Escolhe a escola dos filhos. Marca viagem para daqui seis meses. Faz seguro. Faz exame. Cuida da alimentação. Aprende a meditar. Tenta viver certo.

E, mesmo assim, basta um segundo.
Um.
Segundo.

Então para que serve o planejamento?
E, ao mesmo tempo... como viver sem ele?
Esse é o paradoxo que me rasga.

A vida é completamente imprevisível, mas a gente precisa agir como se o amanhã existisse. Porque, se não agir, também não vive.

A gente constrói uma casa sabendo que ela pode ruir.
Ama sabendo que pode perder.
Tem filhos sabendo que não existe promessa nenhuma.

Planeja porque precisa. Sofre porque acredita. E, no fundo, controla absolutamente nada.
Nada.

Qual foi exatamente o plano que deu errado hoje?

Ele é jovem.
Tem uma namorada linda.
Tem um filho.
Estava construindo uma vida. 
Daquelas vidas comuns que, vistas de perto, são extraordinárias. Trabalhar, voltar para casa, amar alguém, criar um filho, encontrar os amigos.
E agora está em coma.
Como é que uma vida inteira cabe entre sair de casa e não chegar ao trabalho?
Não cabe.
E nunca coube.

Talvez seja por isso que algumas perdas nunca encontrem explicação. Porque não existe lógica suficiente para acomodar a violência da vida.

A gente passa anos tentando aceitar que o mundo faz sentido.
Mas ele não faz.
A única certeza é que ele continua girando enquanto alguém recebe uma ligação que muda tudo para sempre.

Hoje foi ele.
Amanhã...
Não. Eu nem consigo terminar essa frase.

Talvez seja esse o maior engano da existência: acreditar que estamos negociando com o futuro.
Não estamos.
Estamos apenas vivendo um presente que pode acabar antes da próxima esquina.
E isso me apavora.
Porque, no fim, a vida não pede licença.
Ela não explica.
Ela não negocia.
Ela só atravessa.

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