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Você foi embora

Você foi embora.

E eu ainda não entendi como o mundo continua funcionando como se nada tivesse acontecido.

Os minutos passam, as pessoas gargalham, o sol insiste em nascer… e dentro de mim tudo está em ruína. É um silêncio barulhento. Eu ouço a sua ausência em cada canto da casa.

Eu não acredito que você foi embora.

Eu pedi tanto que você ficasse. Tantas conversas, tantos “vamos tentar mais uma vez?”, tantas noites em que eu dormi abraçada em uma esperança que, no fundo, você já tinha largado faz tempo. Eu estava segurando uma corda que você já tinha soltado sem me contar.

E dói. Dói num lugar do corpo que nem tem nome, mas que pesa no peito, aperta a garganta, lateja nas costas. Dói pensar que não terei mensagem sua. Dói olhar pro lado da cama e ver que o seu travesseiro virou um território vazio. Dói perceber que meu futuro tinha seu abraço, seu sorriso, seu jeito irritante de me contradizer… e que tudo, de repente, virou um borrão.

Eu sei que somos diferentes. Eu sempre soube. A gente discutia, discordava de tudo, brigava por besteira. Mas eu acreditava… acreditava que gostar era suficiente. Que com afeto a gente ajeitaria as bordas, lixaria as farpas, encontraria o meio do caminho. Eu acreditei por nós dois. E hoje eu vejo: acreditar sozinha é um tipo de solidão que ninguém avisa que dói tanto assim.

É dilacerante aceitar que você escolheu não ficar.

Você não é vilão. Eu sei que não. No fundo, eu entendo a sua escolha. Você tem o direito de ir embora, de querer outra vida, outro jeito, outra paz que talvez não cabia em nós. Eu entendo. E mesmo assim eu queria gritar: “fica, por favor”. E eu gritei, 7 vezes…

Mas agora eu preciso seguir. É um paradoxo cruel: respeitar a sua decisão enquanto meu coração se rasga porque você a tomou.

Eu achei que podíamos dar um jeito.

Eu tinha planos pra nós. Pequenos, bobos, cotidianos. Assistir série no domingo, discutir sobre nada na cozinha, você reclamando do meu jeito, eu reclamando do seu e, no fim, a gente se encaixando de um jeito torto, porém nosso. Eu achava que esse “torto” bastava. Que a gente era capaz de aprender o caminho de volta um pro outro, sempre.

Mas você escolheu ir. E eu preciso aprender a escolher ficar. Ficar em mim.

Talvez a parte mais cruel seja admitir que não acabou da mesma forma pros dois. Eu ainda sinto. Ainda quero o seu abraço como se ele fosse casa. E é tão injusto saber que, pra você, essa casa já entrou em processo de demolição. Você começou a se despedir antes de eu perceber. Eu ainda decorava o nosso futuro enquanto você já embalava as coisas pra ir.

Vai ser muito duro desaprender a gostar de você.

Como desaprende quem foi remédio, rotina, refúgio? Como desaprende o toque, o cheiro, o som da risada? Como reaprender a dormir sem ficar esperando a porta abrir ou o celular apitar? Eu ainda não sei. Só sei que a gente não clica num botão e desgosta. A gente vai desapegando em parcelas: hoje eu deixo ir o bom dia que não veio, amanhã talvez eu consiga não procurar seu rosto em cada multidão.

Eu choro. Choro alto. Choro em silêncio. Choro lavando louça, choro no banho, choro deitada, choro lendo, choro quando alguma coisa me lembra você. E quase tudo me lembra. O café, a música, o vento, a piada. Parece que o mundo inteiro virou um grande lembrete do que não é mais nosso.

E ao mesmo tempo… num cantinho bem escondido dentro de mim, nasce algo tímido: compreensão.

Eu compreendo que gostar também é, às vezes, deixar ir. Não porque eu quero. Não porque eu estou pronta. Mas porque segurar alguém que já está de partida é uma forma lenta de me largar de mim mesma. E eu prometi que não iria me abandonar.

Eu queria te culpar. Queria te apontar o dedo, dizer que você foi covarde, cruel, egoísta. Mas a verdade é que a sua desistência também é humana. Você cansou de tentar, cansou de remendar, cansou de tentar ser algo que você não era. E, por mais que doa admitir, desistir também é uma escolha legítima. Machuca, mas é legítima.

Então eu aceito.

Não com leveza. Não com paz. Ainda não. Eu aceito com olhos inchados, com insônia, com um milhão de porquês sem resposta. Eu aceito com raiva às vezes, com saudade quase sempre, com um nó na garganta que ainda não sabe como se desfaz. Mas eu aceito.

Aceito que a sua história comigo teve um ponto final, enquanto a minha história com você ainda arrasta reticências. Aceito que talvez eu nunca tenha a explicação perfeita, a frase que feche o ciclo, o entendimento do que de fato deu errado. Aceito que a vida é feita desses buracos sem legenda que a gente aprende a contornar.

Aceito seu adeus, mesmo que pareça, por enquanto, a minha derrota.

Eu vou continuar doendo por um tempo. Vou tropeçar no seu nome. Vou quase te mandar mensagem. Vou ter recaídas de vontade, de saudade, de “e se”. Vou repassar na cabeça tudo que eu poderia ter feito diferente, até me cansar de procurar culpados e perceber que, às vezes, não tem. Às vezes só acaba.

E quando a tempestade dentro de mim acalmar um pouco, eu sei que vou enxergar algo que hoje ainda está borrado: eu continuo aqui.

Mesmo sem você, eu continuo aqui. Respirando torto, mas respirando. Andando devagar, mas andando. Um dia eu vou acordar e perceber que já se passou meia hora e eu não pensei em você. Depois, talvez, um dia inteiro...

Por enquanto, eu só consigo dizer isso: dói. Muito. Dilacera. Mas tá feito. Tá acabado. Você foi. E eu fico. Fico em mim. Fico com o que aprendi, com o que senti, com o que vivi. Fico com a certeza de que um dia meu abraço vai ser casa pra mim, antes de ser abrigo pra qualquer outra pessoa.

Eu aceito que você desistiu de nós. E, aos poucos, entre uma lágrima e outra, eu vou aprender a não desistir de mim.

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