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Não posso aceitar uma vida pequena

Falei no meu ultimo texto sobre o que eu acho que nos mantém vivos depois da partida... 

Eu acredito que sejam aquelas coisas que a gente sequer sabe definir direito, que sequer sabemos explicar. São aqueles pequenos momentos do dia a dia, da rotina que aquecem o coração e nos fazem vivos. 

Eu estou triste. Uma tristeza que mora dentro de mim. Uma sombra que me consome quando as luzes se apagam. 

Mas ao mesmo tempo eu sinto uma vontade imensa de continuar, de viver, de experimentar. 

Recentemente eu sonhei com meu marido e, independentemente de ser um sinal ou uma criação da minha mente, foi muito interessante. 

No sonho ele me via interagindo com amigos e familiares, rindo e me divertindo, e sorria de longe, apenas observando - como que aprovando. Eu o chamava e ele fazia um sinal de que não poderia ir, mas que era pra eu continuar. E eu acordei pensando tanto nisso. 

Porque esse era o Rafael. Ele dizia que se não fosse para sermos felizes juntos, ele preferia que ficássemos separados, porque ele QUERIA SER FELIZ. Ele dizia da falta de sentido em um vida de infelicidade. E se colocava no lugar daquele que, até poderia não estar feliz, mas que com certeza estava buscando a felicidade. 

Isso era incrível. 

O inconformismo dele, a coragem para mudar tudo, para começar de novo e de novo e outra vez. 

Quantos sonhos ele tinha! E como ele não desistia de seus sonhos era algo admirável. 

Eu lembro de tudo isso e penso em como fui abençoada de viver com esse homem, porque olhar pra ele, pra vida dele é ter um "passo-a-passo" de como sair desse lugar de dor e sofrimento. 

Ele não aceitava a vida pequena, sem entrega, sem paixão. Eu desafio qualquer um que o conhecia a dizer que Rafael não se entregou a algum projeto, algum sonho... Ele pagava o preço. 

Lembro que quando nos reencontramos, ele disse que, achando que eu estava feliz, decidiu afastar-se e orou a Deus pedindo que se fosse para estarmos juntos que recebesse um sinal, se não fosse, que Deus me tirasse do coração dele. 

Eu enviei uma mensagem pra ele na hora.

Isso bastou para ele sair de Poços de Caldas e bater em BH, mesmo eu dizendo que não queria vê-lo, que não iria passar meu endereço, que não iria encontra-lo.  

Ele achou meu endereço por saber que eu morava perto de um local onde ele fazia entregas, por uma conversa despretenciosa com meu pai, ele gravou a rota na cabeça e parou na porta da minha casa. 

Quando me ligou dizendo que estava na minha porta eu duvidei e disse que não sairia. Ele respondeu:

- Eu vou ficar parado aqui, nem que seja segunda-feira, pra trabalhar, você vai sair dai e vamos conversar. 

Ele sabia o que queria, e obviamente sabia o quanto eu queria - qualquer um que visse nós dois meio segundo perto sabia. E ele sabia que eu estava morrendo de medo de me machucar de novo... 

Quando eu sai - claro que eu sai - Entrei no carro e perguntei:

- O que você quer comigo? O que você quer de mim?

- Eu quero casar com você. Você é a mulher da minha vida.

Ele não pensou, não titubeou, não hesitou. 

Depois do falecimento dele um amigo próximo disse que quando ele saiu de Poços para Bh disse que estava indo "buscar a mulher da vida dele". Esse amigo conta que achou loucura e que ninguém levou a sério na hora. 

E não é que ele me buscou?

Em 3 meses eu larguei tudo em Bh, trabalho, vida, amigos, tudo - e quem me conhece sabe o tamanho disso pra mim. Com mais 3 meses estávamos casados. 

Esse era o Rafael. E ele me prometeu que eu seria a mulher mais feliz do mundo - e pqp... como eu fui feliz com esse homem. 

Como se eu estivesse minha vida toda encoberta por um lençol fino que não me deixava ser eu, ele me trouxe a luz, ele me incentivou a crescer, a tentar, a buscar sonhos. Ele me apoiou em meus começos, em meus finais, ele acreditava em mim. Ele me olhava com olhos de quem vê seu maior tesouro ali, e eu me sentia a mulher maravilha quando estava com ele. Com ele eu podia sentir medo, ficar angustiada, ter ideias malucas, mudar de profissão. Com ele eu podia sonhar os sonhos mais loucos, rir as melhores gargalhadas e chorar as lágrimas (que na época eu achava) que eram as mais densas. 

E era tão fácil, tão leve e tão intenso. 

E, por isso, em honra a tudo isso,  eu tenho buscado viver cada momento, eu tenho me entregado a cada nova experiência e cada nova aventura. Eu tenho buscado ser feliz e encontrar felicidade em tudo que ainda tenho, tenho buscado lembrar dele com carinho e saudade, mas sem dor, porque foi isso que ele me ensinou. Ele sabia que a vida não valia a pena se vivida sem paixão, sem entrega sem FELICIDADE.

E, como um filhote que anseia por conhecer o mundo, por sentir e experimentar, eu me coloco disponível para a vida como ela é, para a vida com o que ela tem, porque foi assim, me jogando de olhos fechados em um abismo que mergulhei nos braços do Rafa, e foi a melhor coisa que fiz em minha vida. 


Ps. Hoje faz 22 anos do nosso primeiro beijo. 

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