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Quase 5 anos...

Hoje eu me dei conta de que vai fazer cinco anos.

CINCO ANOS.

Como assim, cinco anos?

Já foram cinco carnavais sem ele.
Cinco aniversários dele sem ele.
Cinco Dias dos Namorados. Cinco Dias dos Pais. Quase cinco anos ouvindo “já faz tempo”, como se tempo fosse alguma coisa capaz de explicar a ausência.

Logo serão cinco anos da nossa última viagem.

Cinco natais.
Cinco anos-novos.
Cinco vezes janeiro chegando sem ele.
Cinco aniversários sem ele me dar parabéns.

E eu fico olhando para isso tudo com uma espécie de espanto.
Porque, ao mesmo tempo em que parece que foi ontem, parece que aconteceu numa outra existência.
E talvez tenha sido.
Cinco anos são tempo suficiente para uma vida inteira caber dentro de outra.
Aconteceu tanta coisa.

Eu mudei.
Minha filha cresceu.
Meu trabalho mudou.
Minha casa mudou.
Meu corpo mudou.
Eu me apaixonei de novo.
Eu chorei de novo.
Eu ri de verdade.
Eu viajei.
Eu fiz planos.
Eu me perdi.
Eu me encontrei algumas vezes.

Eu virei uma mulher que ele nunca conheceu.
E isso me dói.
Porque existe uma parte de mim que continuou vivendo sem ele
        e outra que ficou parada naquele dia.

É como se eu carregasse duas mulheres dentro de mim.
Aquela que ainda é sua mulher.
E essa que aprendeu, a duras penas, a ser apenas minha.

Às vezes eu penso na quantidade de coisas que ele perdeu.
E na quantidade de coisas que eu perdi junto.
Ele não viu os anos que vieram depois.
Não viu quem eu me tornei.
Não viu as minhas pequenas vitórias, as minhas derrotas ridículas, as minhas mudanças de cabelo, as minhas crises, as minhas gargalhadas, as coisas que eu comprei sem precisar, os lugares onde fui, as pessoas que chegaram, as que foram embora.
Não viu nada.
E eu não vi quem ele teria se tornado.

Essa é uma das partes mais cruéis da morte: ela não leva apenas uma pessoa.
Ela leva todas as pessoas que aquela pessoa ainda seria.
Leva os futuros possíveis.
Leva as conversas que não aconteceram.
Leva as brigas idiotas que vocês ainda teriam.
Leva os aniversários futuros, os natais, os cabelos brancos, os netos, as viagens, a casa cheia, o sofá, a velhice.
Leva uma vida inteira que nunca teve a chance de acontecer.
E cinco anos depois eu ainda sinto falta.
Ainda.

Isso me assusta um pouco.
Porque eu aprendi a viver.
Mas não aprendi a não sentir falta.
Talvez ninguém aprenda.
Talvez o luto não seja uma porta que você atravessa e fecha atrás de si.

Talvez seja uma casa.

Você aprende onde ficam as coisas. Aprende a andar no escuro. Aprende quais cômodos evitar em determinados dias. Aprende a abrir as janelas.

Mas continua dentro da casa.

E, de vez em quando, você entra em um quarto e encontra uma versão sua sentada ali, cinco anos mais jovem, completamente sem entender que a vida acabou de mudar para sempre.
Eu queria dizer para aquela mulher que vai ficar tudo bem.
Mas não sei se tá ficando...
Porque “ficar tudo bem” não significa voltar a ser quem você era antes.
Eu nunca voltei.

Eu não sobrevivi para voltar àquela vida, até porque, seria impossível...
Eu sobrevivi para construir outra.

Mas ainda assim, em algum lugar dentro de mim, continuo sendo aquela mulher que olha para uma fotografia e pensa:

        Caralho, Rafa.
        Como é que cinco anos passaram?
        Como é que o mundo continuou?
        Como é que eu continuei?
        Como pode parecer ontem e, ao mesmo tempo, 
        existir uma vida inteira entre aquele dia e hoje?

Talvez seja porque cinco anos não são cinco anos quando alguém morre.
São cinco anos de calendário.
Mas são cinco anos de ausência.
E ausência não se mede em tempo.

Mede-se em tudo aquilo que ainda dói quando a gente percebe que, apesar de todos esses anos, existe uma parte de nós que continua esperando encontrar alguém que nunca mais vai chegar pela porta.

O tempo não levou o Rafa de mim. O tempo só me ensinou a carregá-lo de outro jeito.
Porque algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa vida.
Mas nunca deixam de fazer parte da nossa história.

Cinco anos.
E ainda dói.
Ainda bem.
Porque, depois de tudo, eu não quero que a prova de que ele existiu seja apenas uma fotografia antiga.
Quero que seja essa falta absurda.
Essa saudade que, cinco anos depois, ainda sabe exatamente onde me encontrar.

Comentários

  1. Talvez ele esteja sim acompanhando tudo bem de perto. Acompanhando todas tuas mudanças com carinho e orgulho. Aguardando o dia em que as limitações desse mundo nāo vāo mais impedir vocês da convivência um com o outro. Você está certa. Continue! Não é necessário esquecer para continuar e nem continuar significa que esqueceu…❤️❤️

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  2. Hoje fazem 14 meses que minha mãe se foi… Eu entendo perfeitamente cada linha que foi escrita com tanta dor e saudade. É tudo muito doído é sempre vai ser… eles estão mais vivos do que nunca dentro de nós. Talvez nós é que tenhamos deixado de existir para eles. Mas eu prefiro acreditar que não. Prefiro acreditar no reencontro. Para ver se dói menos…

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