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Contrassenso (29/10/25)

Desde a hora em que acordei, rolo de um lado pro outro na cama.
Inquieta. 
Procurando o calor que estava aqui e não está mais
mas deixou marca em tudo.

No ar que me falta, lembrando das suas mãos.
Na voz que surge, de repente, dentro da minha cabeça, dizendo: 
“eu tive uma ideia.”

E eu rio, sozinha 
não pelo que você disse, mas como disse e o que significa.
Porque às vezes é isso que a saudade faz: não devolve a pessoa,
mas devolve o gesto, o tom, o jeito.

O lençol ainda guarda o desenho do seu corpo,
como se o tecido tivesse aprendido o contorno da sua ausência.
E eu, tonta, continuo procurando o que sei que não está 
mas que ficou em mim de algum outro jeito.

Você é vício.
É urgência.
É calma.
Um contrassenso que me desorganiza e me centra 
ao mesmo tempo.
Me quebra e me conserta… 
tantas vezes…
que já nem consigo contar.

Talvez amar seja isso:
aceitar ser ruína e reconstrução no mesmo abraço.
Entender que algumas presenças, mesmo quando partem,
ficam 
dentro da gente
feito febre boa,
um calor que não apaga.

Saudade do seu olhar — surpreso —
do outro lado do balcão.
Como se o mundo tivesse parado por um segundo,
e, sem querer, a gente tivesse 
se reconhecido.

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