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A calma que arde (20/10/25)

Tem algo novo acontecendo dentro de mim.
Não explode. Não atropela. Não pede socorro.

Só pulsa… com uma calma aquietante
mas com uma intensidade que há muito tempo eu não sentia. 

É como se, depois de tanto tempo anestesiada, eu tivesse finalmente reencontrado um sentir que é só meu. 

E ele pulsa. 
Com presença, com leveza, com coragem. 

E, contrariando o senso comum, 
o mais bonito disso tudo 
é que esse sentimento não me sequestrou
ele me devolveu pra mim.

Não me interessa se durará uma semana ou uma década. 
Não estou calculando as possibilidades de queda, nem construindo um plano de fuga. 
Só estou mergulhando... de olhos fechados. 

E se doer? 
Bom… Pelo menos eu senti. 

Porque… tem algo nele que me dá paz. 
Me traz de volta pra casa.
Me devolve pra mim.

Não é paz de promessa eterna. 
Mas paz de presença verdadeira. 
Não sei se é o jeito que ele me escuta. 
Ou o modo como ele não finge nada. 
Só sei que ali, no tête-à-tête, não tem teatro. 
Tem jogo limpo. Cartas na mesa.

E é louco como tem fogo, mas não tem destruição.
Tem desejo, mas não tem desespero. 
Tem carinho, mas não tem carência. 

E eu não sei nem que nome dar pra um sentimento que  
não precisa gritar pra ser sentido. 
Nem exigir pra se tornar real. 

Mas eu sei que estou aqui. 
Inteira. 
Sentindo. 
Por mim. 
Pra mim. 

E já fazia tanto tempo que eu não me sentia assim. 

Talvez seja paixão. 
Mas não daquele tipo desgovernado, ansioso, que nos sequestra. 
Talvez exista uma paixão silenciosa, inteira, que nasce e floresce aqui mesmo, dentro da gente...
independente do que o outro sinta, diga ou faça. 

Não é não querer reciprocidade, entenda. É claro que quero ser correspondida. 
Coisas recíprocas são mais bonitas. Têm ritmo. Têm música. 

Mas, o que eu estou sentindo não depende da resposta. 
Não depende dele sentir de volta. 
Essa paixão - se for paixão - é minha. 
Do meu corpo, da minha pele, dos meus pensamentos. 
Ela me pertence como me pertencem os suspiros que solto quando ele me desmonta. 
Ou como pertence a mim o silêncio que fica depois de uma troca de olhares. 

Não é carência. 
Não é projeção. 
Não é um “eu me apaixonei pelo que inventei”. 

É o contrário disso: 
Se me apaixonei foi pelo que vi nele: alguém absurdamente verdadeiro. 
E talvez seja isso que me deixou tão à vontade. 
A verdade. 
E a verdade, em tempos de máscaras, é puro erotismo.

Ele apenas é. 
E, hoje, eu simplesmente sou. 
Completamente presente nesse sentimento que pulsa em mim, sem me exigir performance. 

Não sinto medo. 
Não estou tentando prever o fim. 
Não estou fazendo planos secretos de como me proteger caso algo desande. 

Porque, dessa vez, eu não desejo sobreviver à paixão. 
Só viver a paixão. 

É libertador. 
Saber que posso sentir sem amarras. 
Sem contratos. 
Sem a necessidade de prender o outro. 
Sem o desespero de ser escolhida. 

Sinto que ele me vê. 
Não com aquela idealização distorcida, mas com um olhar sincero, que valida minha presença, minha força, minha entrega. 

E isso me dá uma segurança que não é sobre ele ficar
É sobre ele estar
Agora. 
Aqui. 
Inteiro.
Entregue.

E se amanhã não estiver mais? 
Bom… 
A dor será consequência de algo que valeu a pena. 
E me conforta saber que, enquanto durar, será real. 
E não será condicionado. 
Nem cobrado. 
Nem manipulado. 

Eu sei que muitas pessoas têm medo de sentir assim. 
Com o peito aberto. 
Com a alma exposta. 
Mas eu cansei de sentir com armadura. 
Porque sentimento de armadura não abraça. 
Não toca. 
Não transforma. 

E se eu tiver que sofrer depois, tudo bem. 
Já passei por sofrimentos que me quebraram a alma e ainda estou aqui. 
Pois prefiro um sofrer que valeu, do que um “e se” que nunca vivi

Estou apaixonada… simplesmente. 
E é delicioso poder dizer isso sem medo de parecer ridícula.
Sem precisar esconder.
Sem depender do outro para validar o que já é tão imenso dentro de mim.

E ainda que vire
amizade, ausência ou memória,
já terá sido uma experiência linda.

Porque, pela primeira vez, a paixão não é um pedido.
É uma presença.

E isso, por si só, já vale tudo.

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