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O Brasil não tem cultura?

Ouvimos isso o tempo todo. Fruto de um velho e cansado complexo de vira-latas, essa ideia de que somos um país menor, sem arte, sem cinema, sem grandeza. Como se o Brasil não tivesse sua própria voz, como se nossa cultura fosse apenas um reflexo pálido de outras, sem brilho próprio. Mas basta olhar com atenção para ver: o Brasil não apenas tem cultura, o Brasil É cultura.

Se não tivéssemos cinema, O Pagador de Promessas não teria cruzado o mundo com sua fé e tragédia, conquistando Cannes. Cidade de Deus não teria feito a indústria cinematográfica mundial tremer diante de sua estética feroz. Central do Brasil não teria levado nossa alma para a tela, emocionando o Oscar e eternizando Fernanda Montenegro como uma das maiores atrizes da história.

Se não tivéssemos música, João Gilberto não teria reinventado o tempo com sua bossa, Cartola não teria pintado nossa tristeza com poesia, o funk não teria feito o mundo abaixar até o chão. Se não tivéssemos literatura, Machado não teria dissecado a alma humana antes mesmo de Freud, Guimarães Rosa não teria recriado o sertão com palavras que ninguém mais soube escrever, Ariano Suassuna não teria misturado o erudito e o popular numa dança única de genialidade.

O Brasil está nos detalhes. No barroco mineiro e no concreto brutalista de São Paulo. No maracatu, no samba, no frevo e no rap. No teatro de Nelson Rodrigues e na fúria de Glauber Rocha. No ritmo do tambor e no compasso do pandeiro.

Nossa cultura é ancestral, plural, revolucionária. É resistência e reinvenção. O problema nunca foi a falta de cultura – o problema é quem não quer enxergar.


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