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Meu santo avisou

Hoje eu tô arrasada.

O Lula foi para o segundo turno em segundo lugar, temos o pior congresso da história e minha amiga de vinte anos, que já tinha parado de falar comigo, deixou de me seguir e eu nem sei por quê.

Não sei. Não sei mesmo.

E talvez seja isso que mais me irrite: não ter uma explicação.

Cara… que merda.
Que merda.

Hoje eu tô com raiva, magoada, decepcionada, em luto pelo Brasil, em luto por uma amizade que eu nem sei exatamente porquê morreu e, de quebra, estou arrependida.

Muito arrependida.

Das escolhas que fiz no ano passado.
Na verdade, de uma escolha.
Uma escolha específica.

24/07/25.

Eu consigo voltar para aquele dia na minha cabeça com uma nitidez quase irritante. E o pior é que meu santo avisou.
Avisou bonito.
Não faça.
Não fique.
Não.
Não.
Não.
Não faça isso, Polly.
E eu fui lá e fiz.

Fiquei com o irmão dela.
E dali para frente foi ladeira abaixo.

É impressionante como, às vezes, uma escolha que parece pequena abre uma porta que a gente não faz ideia de onde vai dar.

Você entra.
E quando percebe, está em outro lugar.
Outra versão da sua vida.
Outra versão de você.
E hoje eu queria voltar.
Só um pouquinho.
Voltar para aquele 24 de julho e dizer para mim mesma: “Não vai. Você não precisa descobrir o que acontece depois. Confia em você. Vai embora enquanto ainda é fácil.”

Mas não existe voltar.

Existe esse lugar estranho onde a gente olha para trás e consegue enxergar exatamente onde deveria ter virado, mas só porque agora conhece o caminho inteiro.

E talvez seja essa a parte mais cruel do arrependimento.
A mulher que eu era naquele dia não sabia o que eu sei hoje.
Ela só sabia o que sentia.
E foi.

Hoje eu sei que escolhas têm consequências. Que algumas pessoas entram na nossa vida carregando outras pessoas, outras histórias, outras dores. Que às vezes uma decisão aparentemente banal desencadeia uma sequência inteira de acontecimentos que a gente jamais teria escolhido conscientemente.

E ainda assim… escolheu.

Hoje eu tô cansada de ser adulta.
Cansada de compreender tudo.
Cansada de elaborar, ressignificar, aprender, amadurecer, transformar dor em aprendizado.
Hoje eu queria só poder dizer:
CARALHO. DEU MERDA.
E pronto.
Sem lição.
Sem frase bonita.
Sem “tudo acontece por uma razão”.
Porque às vezes a gente só faz uma escolha ruim.
Às vezes alguém vai embora sem explicar.
Às vezes uma amizade de vinte anos termina num silêncio.
Às vezes o país que você ama toma um rumo que te assusta.
Às vezes você olha para trás e pensa: “Meu Deus, por que eu fiz isso?”
E hoje é um desses dias.
Hoje eu tô um caos.

Mas seguindo e trabalhando.
Porque, no fim das contas, a vida continua exigindo de nós coisas absolutamente incompatíveis com o nosso estado emocional.

O coração em pedaços.
A cabeça em guerra.
E uma petição para protocolar às 17h.

A vida não quer saber se a gente está pronta.
Ela simplesmente continua.
Então hoje eu vou continuar também.
Não porque esteja tudo bem.
Não está.
Mas porque, apesar de tudo, eu ainda estou aqui.

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