Pular para o conteúdo principal

Te encontrei numa folha em branco

Eu uso bloco de notas para escrever durante os meus dias de trabalho. Rabisco ideias. Faço listas. Anoto audiências, tarefas, pensamentos soltos. Talvez por isso eu nunca tenha dado muita importância aos blocos em si. Eles sempre foram apenas o lugar onde as coisas passavam.

Recentemente, troquei o bloco que estava usando por um novo que estava guardado em uma gaveta aqui no escritório. Usei a primeira página normalmente.

Mas quando virei para a segunda, me deparei com uma letra que provavelmente nunca mais vai escrever nada para mim. E com um recado que ele deixava em praticamente todos os blocos, papéis e cadernos que encontrava ao meu redor:

"Pollyanna! Te adoro!!! Você é uma pessoa extraordinária!"

É engraçado. Houve um tempo em que encontrar essas palavras era capaz de transformar o meu dia inteiro. Bastava olhar aquela letra redonda, familiar, e eu me sentia amada.

Dessa vez não. Dessa vez elas não me fizeram sorrir. Só conseguiram desestabilizar um pouco o meu dia. E talvez isso diga algo sobre o caminho que ainda preciso percorrer.

Porque a verdade é que eu não estava pensando muito nisso. Não tenho pensado nessa relação com frequência. Em certa medida, eu até estava começando a acreditar que já estava curada. Achava que tinha atravessado a pior parte. Achava que nada mais poderia me abalar.

Mas é impressionante como a vida gosta de nos surpreender. Transformar em lágrimas meia dúzia de palavras e uma página que deveria, mas não está em branco. Meu coração reconheceu a  letra antes mesmo dos olhos. E de repente aquela folha conseguiu abrir uma porta que eu nem sabia que ainda estava destrancada. 

Vieram as lembranças. Vieram as saudades. Veio aquele aperto no peito que eu jurava não morar mais aqui.

E por mais que eu saiba que não era uma relação boa. Por mais que eu saiba que não era saudável. Por mais que eu tenha absoluta certeza de que ela não fazia bem para nenhum de nós. A primeira coisa que eu pensei foi:

Volta. Volta para mim. A gente se vira, nos vira, revira e faz dar certo. 

E existe alguma coisa profundamente desconcertante em admitir isso. Porque a razão e o coração raramente assinam os mesmos documentos ao mesmo tempo.

Então eu me peguei fazendo perguntas. Perguntas que talvez não tenham respostas…

Será que isso é fraqueza? Será que é carência? Será que é dependência emocional? Ou é só burrice mesmo? Será que ainda existe alguma coisa maior do que tudo aquilo que deu errado? Será que eu continuo sentindo falta porque não deixei ninguém chegar perto? Será que a ausência dele ainda ocupa espaço porque o lugar continua vazio? Será que, se eu beijar outra boca, vou parar de sentir tanta falta da dele? Será que, se outro corpo quente se enrolar no meu durante a madrugada, eu vou parar de sentir tanto frio?

E eu não sei. Talvez ninguém saiba. Talvez algumas dores simplesmente não possam ser resolvidas através de respostas. Só através do tempo.

O que eu sei é que não há nada que eu possa fazer. Não devo ligar. Não devo bater na porta. Não devo transformar saudade em destino.

O que eu devo é dobrar tudo isso que estou sentindo com o maior cuidado possível e guardar na gaveta mais escondida do meu coração. Guardar até esquecer onde coloquei. Porque existem amores que não sobrevivem à realidade. E quando isso acontece, a única escolha possível é parar de alimentá-lo.

Tudo o que eu posso fazer agora é tirar o oxigênio dessa fogueira até o fogo apagar. 
Parar de regar essa planta até ela secar.
Aceitar que algumas coisas morrem mesmo quando ainda existe amor.
Aceitar que nem toda saudade é um convite para voltar.
Às vezes é apenas uma lembrança de que aquilo existiu.
E foi importante.
Mas acabou.

E eu acredito, ou pelo menos estou tentando acreditar, que em algum momento, das cinzas desse amor que não existe mais, e da decomposição dessa planta que já morreu, alguma coisa nova vai nascer.
Alguma coisa mais saudável.
Mais leve.
Mais inteira.
Mais feliz.

Porque a natureza tem dessas.
Ela transforma incêndios em terra fértil.
Transforma fim em adubo.
Transforma perda em espaço.
E talvez a cura seja exatamente isso:
Parar de tentar ressuscitar o que morreu e começar a confiar no que ainda pode nascer.

Comentários

Mais Vistas

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!

2022  em palavras: Morte e renascimento. Perdas e recomeços. Tristeza e felicidade. Desamparo e amizade. Eu abraçando a minha dualidade, em um mundo onde nada é simplesmente branco ou preto.  Aquele ditado de que Deus fecha uma porta mas abre uma janela é real demais. Quando vi o mundo desabar, encontrei as melhores pessoas para segurar as paredes que restavam e tijolo por tijolo reconstruir a minha vida. Quando não tive forças para andar, fui carregada por amores que eu nem imaginava quão intensos eram. Quando me vi sozinha, desamparada, tive revezamento de abraços e colos, compreensivos e engraçados me mostrando que eu JAMAIS estaria sozinha. Quando tudo parecia perdido, fui incentivada a tentar de novo, fazer diferente, acreditar e sonhar.  E eu terminei mais um ano agradecendo. Agradecendo por cada uma dessas pessoas que me ajudou a chegar até aqui, cada um desses abraços de conforto, cada um que dedicou tempo e paciência pra me ver levantar, cada um que segurou a min...

A ridícula ideia de nunca mais te ver

Hoje a minha gata derrubou um livro da prateleira. Não foi qualquer livro. Caiu justamente aquele que virou meu amuleto desde que o Rafael morreu: “A ridícula ideia de nunca mais te ver” , da Rosa Montero. Esse livro, que eu ganhei da prima do Rafael (que no meu coração sempre vai ser também a minha prima Nat) me acompanhou pelas ruas mais tortas do luto. Ele andou comigo quando eu mal conseguia andar sozinha. Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”. Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a d...