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A profecia (auto)realizável

Sabe aquela história de tentar evitar tanto uma coisa, que no fim é exatamente isso que faz ela acontecer? Pois é.
O sociólogo Robert K. Merton deu nome pra esse enredo que a vida adora encenar: profecia autorrealizável. Em resumo, é quando a gente acredita tanto em algo — mesmo que falso — e age de tal forma pra evitá-lo, que acaba transformando a própria crença em realidade.
Mas Merton, coitado, talvez não tenha imaginado que um dia essa teoria viraria manual de instruções da vida emocional moderna. Porque, convenhamos, a gente vive criando catástrofes antes delas existirem.
Fazendo cálculos emocionais pra que nada saia do controle — e, ironicamente, é isso que nos tira do eixo.

A gente se antecipa.
Quer prever o imprevisível.
Quer se proteger do que nem chegou.

E nessa ânsia de escapar da dor, de evitar o fim, a gente constrói com as próprias mãos o exato caminho até ele:
É o garoto que tem tanto medo de ser traído que começa a desconfiar de tudo, vasculhar sinais, procurar ausências, até transformar o amor em interrogatório e, no fim, torna-se um fracasso de afeto.
É a garota que tem tanto medo de não ser suficiente que se esconde, evita, se fecha, e acaba fazendo exatamente o que temia: empurrar o outro pra bem longe. 
É o “não vou me apegar” que dorme de conchinha três noites seguidas, até ver-se perdido na deliciosa onda de ocitocina que só um amanhecer abraçado proporciona. 
É o “não quero perder o controle” que vira refém de um medo que nunca se concretizou, mas já o domina completamente.
É a profecia autorrealizável: o destino que a gente ajuda a escrever tentando apagá-lo.
E se você reparar bem, é o enredo de todo filme que já viu. O herói tenta evitar o desastre e cada decisão tomada pra impedir o caos é o que o leva até ele.
A vida, com seu senso de humor duvidoso, parece adorar repetir a mesma piada: quanto mais você tenta prever o futuro, mais rápido ele te surpreende.
Talvez o segredo não seja fugir, nem controlar, nem teorizar.
Talvez seja deixar o enredo correr, e observar o que vem: sem a necessidade neurótica de explicar, rotular, proteger.
Porque às vezes a vida não está te testando; está só te oferecendo algo simples, bonito, espontâneo. E você, com medo de perder, transforma em enigma, ameaça, hipótese de fracasso. 

A vida é generosa, ela entrega presentes embrulhados, encontros que parecem acasos, coincidências que pedem fé. E a gente, ao invés de aceitar, abre o presente com luvas de medo, lupa de trauma e régua de controle.

Talvez seja hora de aceitar as dádivas sem manual de instruções.
De parar de correr atrás do que ainda nem fugiu.
De deixar de lado a profecia e viver o agora, sem medo de que o depois te desminta.

Porque, no fim, a única tragédia inevitável é essa: a de quem gasta tanto tempo buscando não se ferir, que se corta na tentativa.

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