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As mil que habitam em mim (2023)


Eu ando tão esquisita ultimamente. 

Não reconheço muitos dos meus sentimentos e tenho sentido uma vontade enorme de só ficar na minha, no meu canto, quieta. 

As vezes eu sinto como se eu não fosse eu mesma mais. Uma parte do fogo que queimava em mim parece ter-se apagado. Ao mesmo tempo, bem timidamente, parece ter uma chama começando a tomar força aqui dentro. 

Tem tanta coisa acontecendo na minha vida... tanta coisa... 

São dias infinitos e sentimentos confusos. 

E eu não gosto nada disso. Gostava quando tudo era claro e simples e quando eu sabia exatamente o que estava sentindo. 

Hoje sinto como se uma parte de mim caminhasse para frente enquanto outra parte de mim não consegue largar tudo que passou... e eu tenho feito tanta força pra puxar essa parte de mim que não quer sair do lugar... tá tão pesado, tão cansativo. 

E eu sorrio, gargalho, beijo, danço e conto histórias. Eu me relaciono com pessoas e deixo que todos pensem que estão me vendo, me sentindo, me conhecendo... mas na verdade... ninguém consegue me acessar mais... e isso é tão vazio... tão solitário e triste... 

Sinto tanta falta dos olhos nos olhos e da conexão de duas almas... 

Do ser, sem reservas, sem vergonhas, sem precisar esconder nenhuma parte de mim... só ser, ainda que feliz, mesmo que triste... 

Como se eu deitasse nua sob o sol, sem esconder nada, sem nenhum pudor. Sendo tocada, aquecida, admirada por aquela estrela brilhante. Sem julgamento, sem cobranças, só aquele momento nu de dois seres entregues.

Saudade do sol... acho que o verão me deixa mais animada... menos introspectiva. Mais acessível a mim mesma, inclusive. 

Essa semana a psicóloga disse que eu estava com pressa demais... e eu ouvi aquilo pensando: mas tudo já está tão lento... os dias não passam, eles se arrastam... mas parece que uma parte de mim, aquela que eu tanto arrasto, precisa de mais tempo... e eu tô exausta dessa lentidão dela - eu e mais um monte de gente... mas como diria a profissional: f*dam-se eles.

Como se essa pequena mimada que habita em mim se importasse. Acho que essa é a mágica: uma parte de mim pouco se importa com tudo que tá acontecendo comigo ou ao meu redor... uma parte de mim está egoísta e egocêntrica demais... talvez seja meu ego frágil (piada interna). 

Eu tô com saudade hoje, mas é de mim, do fogo que queimava em meus olhos. Ao mesmo tempo que gosto dessa Pollyanna estranha e bipolar, com dias de multidão e de silêncio... e muito mais foco em mim mesma. Acho que nunca olhei tanto pra mim... que ser humano complicado... quantos medos carrego comigo, quanta insegurança... quantos sonhos eu tinha escondidos dentro de mim... quantos desejos... 

Tô com saudade da mente leve e daquela sensação de saciedade, de plenitude, de paz. Tô com saudade de não me questionar tanto, de não sentir tanto medo, tanta angústia, tanta solidão. Tô com saudade de olhar pra frente e pensar: gratidão, apenas. 

Mas sigo caminhando, buscando... tentando arrumar tempo, força e energia pra todos os desejos e sonhos... buscando descongelar essa geleira que se formou dentro de mim... ainda que sinta muito medo de sentir aquele calor todo de novo... talvez quando chegar setembro as coisas melhorem... a primavera sempre trás novas possibilidades... 

E como sempre, no final de um texto confuso como minha mente, termino com aquele eu te amo clássico, te amo muito, te amo imensamente e me orgulho demais de você... mas hoje é pra mim, Pollyanna, a bipolar, a lenta, a que não quer andar, a acelerada, a que faz mil coisas, a que se entrega, a intensa, a cheia de fogo, a que está congelada… a que vai desbravar o mundo... eu te amo e é um prazer imenso conviver com cada uma das mil doidas que habitam em você. 

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