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Morte (17/02/22)

Porque a gente nega tanto a morte?

Tava assistindo uma série onde uma personagem está com câncer a e possibilidade de que ela poderia morrer é propositalmente ignorada pelas amigas - porque a gente não quer lidar com essa realidade. 

Porém não há nada mais certo em nossas vidas do que a morte. 

Meu marido dizia que para morrer basta estar vivo, ele não inventou a frase, mas a repetia. Sempre achou que devíamos viver, pois a certeza da morte já se apresentava pra nós - dura e fria. 

Mas a gente não pensa na morte. A gente não vive nossa vida como se a morte pudesse chegar até nós. 

Nos últimos tempos eu estava ouvindo muito uma música que fala sobre isso, sobre a nossa finitude e a possibilidade de tudo acabar, mas ainda assim, eu não imaginei que esse - tudo acabar - seria tão perto de mim. 

Achava que o tudo acabar seria com alguém velho e que já estivesse pronto pra isso. Mas não é assim que a morte funciona. Não tem relação com estarmos preparados. Não tem relação com nossa idade. Não existe uma lógica na morte, um roteiro, um passo a passo. Ela só acontece. 

E ela pode acontecer com qualquer um, novo, velho, pronto ou louco pra viver ainda. 

Meu marido falava que queria envelhecer, pois o único jeito de não envelhecer era morrer jovem. Ele não chegou no aniversário de 40 anos - festa que ele, inclusive, já havia planejado.

O que eu aprendi com isso? Que temos que estar preparados pra morte. A todo tempo, o tempo todo. Pensar sobre ela e nos perguntarmos: se tudo acabar agora, eu vou em paz ou eu vou deixar um monte de assuntos inacabados? Se tudo acabar agora, pra mim ou pra qualquer pessoa que convive comigo, eu terei dito tudo que precisava? Terei feito tudo que desejava? 

Mas muito além disso, temos que pensar sobre o que realmente levamos daqui pois pelados viemos e pelados vamos embora. O que realmente fica?

Pela infeliz experiência que estou tendo, o que fica são as lembranças de quem você foi, o que você fez pelas pessoas, como você fez parte da vida delas, o que você realizou de bom. 

Eu deveria ter aprendido tudo isso com meu marido antes de tudo acontecer pois ele sabia tudo isso. Ele vivia tudo isso. E a prova disso foi o velório e sepultamento dele.

Foi uma cerimônia absurdamente emocionante, triste pela repentina e precoce partida dele, mas com muitas pessoas saudosas falando sobre o homem bom, prestativo, amoroso e humano que ele foi. Sobre toda sua intensidade em tudo que fazia, sobre seu grande coração que transbordava amor. Eu nunca havia visto tantas pessoas tristes por uma partida quanto neste dia, nunca tinha visto tamanha comoção, nunca tinha visto um lugar tão lotado de pessoas realmente emocionadas e falando de alguém de forma tão especial. 

Hoje percebo a sabedoria do Rafael, pois ele viveu da forma mais plena e intensa que alguém pode viver, amou intensamente, sorriu intensamente, lutou pelos seus sonhos intensamente. Ele não aceitava um não, não existia o impossível. E ele amava estar vivo - porque ele estava realmente vivo. 

A maioria de nós apenas existe. 

E porque ele se entregava a vida da forma mais profunda que eu já vi alguém se entregar que era tão bom dividir isso com ele... 




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