Pular para o conteúdo principal

Eu sou imensidão (10/08/2024)


Há uma nova forma de amar, que se esconde entre ausências e silêncios. É um amor que se mostra pela metade, que não se entrega por completo, que prefere manter a distância. 

Não é que falte sentimento, mas há um receio constante de se deixar transbordar, de ser tomado pela emoção. 

É um amor que teme o próprio reflexo no espelho, que foge de qualquer traço de vulnerabilidade. 

Esse medo de se emocionar faz com que a entrega seja sempre medida, sempre controlada. Como se amar de verdade fosse um risco grande demais, como se demonstrar fosse um crime imperdoável.

Mas eu sou feita de outra matéria. 

Eu anseio por essa emoção que parece te assustar. 

Preciso me emocionar, me deixar tomar pelas marés do que sinto, sem me preocupar se estou sendo imprudente. 

Meu amor não conhece meio-termo, ele não sabe o que é segurar as rédeas. 

Para mim, amar é se lançar, é se deixar levar pelo turbilhão. É sentir o peito arder, é abraçar a intensidade, é saber que em cada gesto há uma declaração silenciosa de afeto. 

Eu não posso amar pela metade, não consigo viver nesse equilíbrio constante entre presença e ausência.

Há em mim uma imensidão que não cabe nesse mundo raso, que não se conforma com essa nova forma de amar. 

Eu sou oceano, sou tempestade, sou vastidão. 

Preciso de profundidade, de um amor que se aprofunda, que mergulha comigo até o fundo, sem medo de se afogar. 

Para mim, o amor é um campo aberto, sem limites, onde se corre livre, onde não há medo de se machucar. 

E quando encontro esse amor limitado, que hesita, que prefere se manter à margem, sinto que estou sendo convidada a caber em algo pequeno demais para a grandeza que carrego dentro de mim.

Acho que você não compreende a complexidade do ser humano, não entende que alma precisa transbordar. 

Eu não posso me conformar em ser pequena, em conter minha imensidão para caber nesse espaço que você oferece. Prefiro me retirar, deixar que você ame à distância, com suas ausências, enquanto eu busco um amor que seja tão vasto quanto o meu, que se entregue sem medo, que se emocione sem reservas. Porque, no final, eu preciso de um amor que me aceite por inteiro, que não tema minha imensidão.

Comentários

Mais Vistas

A profecia (auto)realizável

Sabe aquela história de tentar evitar tanto uma coisa, que no fim é exatamente isso que faz ela acontecer? Pois é. O sociólogo Robert K. Merton deu nome pra esse enredo que a vida adora encenar: profecia autorrealizável. Em resumo, é quando a gente acredita tanto em algo — mesmo que falso — e age de tal forma pra evitá-lo, que acaba transformando a própria crença em realidade. Mas Merton, coitado, talvez não tenha imaginado que um dia essa teoria viraria manual de instruções da vida emocional moderna. Porque, convenhamos, a gente vive criando catástrofes antes delas existirem. Fazendo cálculos emocionais pra que nada saia do controle — e, ironicamente, é isso que nos tira do eixo. A gente se antecipa. Quer prever o imprevisível. Quer se proteger do que nem chegou. E nessa ânsia de escapar da dor, de evitar o fim, a gente constrói com as próprias mãos o exato caminho até ele: É o garoto que tem tanto medo de ser traído que começa a desconfiar de tudo, vasculhar sinais, procurar ausência...

A falta de controle

Você já parou pra pensar como a vida muda seu curso em um segundo? Do mais absoluto NADA. Um instante antes você está dentro da rotina, acreditando que tem um roteiro em mãos, que sabe a próxima cena. E, de repente, sem aviso, sem preparação: BOOMM! Tudo se desfaz. Você precisa recomeçar, refazer, assimilar… do nada. Um acidente, um adeus, uma doença. Do nada. E é aí que a vida nos revela sua crueldade e sua beleza: ela não pede licença, não dá prévia, não negocia. Ela simplesmente acontece. E, ainda assim, a gente insiste em acreditar que tem controle… e sofre pela ausência dele, como se essa ausência fosse falha, quando na verdade é a regra do jogo. A falta de controle é a lembrança mais cruel e mais bela da existência. Cruel porque nos arranca a ilusão de sermos donos do tempo, dos outros, até de nós mesmos. Bela porque, ao despir-nos dessa ilusão, nos devolve a verdade mais antiga: tudo é instante.  Heráclito já dizia que “ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque as águas ...

Ep. 19 - Não é charminho. É NÃO, mesmo!

Quantas vezes você já teve que dizer “não” até começarem a te levar a sério? Uma. Duas. Cinco. E o pior? Ainda sair como grossa. Nesse episódio eu falo sobre essa cultura absurda da insistência, sobre o mito do “charminho” feminino e sobre o que a psicologia explica quando alguém simplesmente não aceita o seu limite. Porque “não” não é desafio. Não é teste. E definitivamente não é convite. É limite. E limite merece respeito. Dá o play. 🎙️