Pular para o conteúdo principal

Eu sabia

 


Perdi o sono, de novo. 
Assisti um vídeo de um psicólogo dizendo que existem 2 grandes mentiras sobre o luto:
1. Que passa
2. Que vai doer menos

E ele explica. Não passa, você convive com aquilo. Você leva a dor para o trabalho, para a mesa de jantar, para os encontros. Ela é parte de você. Aquela perda é parte de você. Não existe mais a pessoa que você era antes. E muitas vezes você nem sabe mais quem você é neste processo. 
Não dói menos pq nos momentos em que você é feliz. Nos momentos  em que a felicidade ousa te encontrar a saudade vem e te rouba esse momento pq você pensa: queria tanto que essa pessoa estivesse aqui… 

E pensando nessas coisas e no meu projeto engastalhado de escrever mais (é um processo doloroso e me sinto um cão correndo atrás do próprio rabo) pensei em ler meus diários. 
Tenho diários em papel, em apps, em anotações digitais… eu traduzo o mundo nas palavras. E aí achei essa anotação da segunda foto e meu coração se quebrou e ao mesmo tempo se encheu de alegria:

“Sou grata por minha vida, meu marido e filha. 

Passei o dia com o Rafael e em dado momento, quando corríamos da chuva, eu me senti imensamente feliz. E me dei conta de como é bom estar ao lado dele.”

Eu não lembro exatamente o que aconteceu no dia 14/12/20. Não sei onde fomos ou o que fizemos e minhas anotações daquele dia são extremamente vagas. Foi só um dia comum. Daqueles que a gente não presta atenção direito, daqueles que a gente esquece. Mas eu lembrei de anotar o mais importante, eu lembrei de escrever o que realmente tinha me tocado e o que realmente vale ser lembrado.

Eu fiquei feliz, feliz de saber que corremos na chuva juntos, feliz de saber que Tonha sido um dia bom, feliz de saber que eu SABIA enquanto VIVIA que eu estava experimentando algo especial demais, gigantesco, divino. 

E é engraçado pq até a paz é dolorida… pq eu queria mais. Eu sempre vou desejar mais pq ele, definitivamente, era a minha pessoa nesse mundo enorme. 

Há quem diga que é impossível alguém me amar assim, que eu devia me “desfazer” do luto e seguir. O Rafael me amou com todas as minhas cicatrizes, defeitos e problemas. As vezes eu até acho que era por isso tudo que ele me amava. Então, se for pra algum dia viver um novo amor, não aceito menos que isso. 


Comentários

Mais Vistas

A ridícula ideia de nunca mais te ver

Hoje a minha gata derrubou um livro da prateleira. Não foi qualquer livro. Caiu justamente aquele que virou meu amuleto desde que o Rafael morreu: “A ridícula ideia de nunca mais te ver” , da Rosa Montero. Esse livro, que eu ganhei da prima do Rafael (que no meu coração sempre vai ser também a minha prima Nat) me acompanhou pelas ruas mais tortas do luto. Ele andou comigo quando eu mal conseguia andar sozinha. Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”. Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a d...

Paz é parar de lutar contra a realidade

Tem uma fase do término que ninguém explica direito. A fase em que você já entendeu racionalmente que a relação acabou, que não fazia bem, que os dois estavam se machucando… mas emocionalmente ainda vive como se estivesse esperando alguma coisa voltar. Uma mensagem. Um arrependimento. Uma versão da história em que tudo finalmente faça sentido. E talvez o mais difícil de aceitar seja isso: algumas pessoas realmente conseguem ir embora sem olhar pra trás. Enquanto outras revisitam conversas, lembram de detalhes, tentam entender onde exatamente tudo desandou…  E eu acho que isso aconteceu com a gente. Perceber que o amor que eu sentia não existia aí do outro lado me quebrou inteira... mas a verdade é que você não gostava de mim, não o suficiente pra ficar. E você disse isso: "eu não te amo". Essa frase, esse momento, ficou ecoando na minha mente, em looping... acho que você nem precisava ter dito isso. Se você ia embora, porque ser tão cruel? Mas enfim... você já foi. E eu cont...

É minha culpa?

Tenho orgulho de mim. E talvez essa seja uma das frases mais difíceis que já precisei dizer olhando no espelho. Porque apesar de tudo… eu tô seguindo. Sigo trabalhando. Estudando. Treinando. Levantando da cama nos dias em que meu corpo parece feito de concreto e minha mente só quer silêncio. E eu até tive silêncio… um silêncio ensurdecedor do único lugar de onde eu queria ouvir alguma coisa. A Ana comentou que conversou com meu irmão, uns meses atrás, porque estava estranhando meu comportamento. Disse que eu sou uma pessoa falante… e que meu silêncio estava preocupando ela. Ela já sabia que algo tinha quebrado antes mesmo de eu perceber. Engraçado como quem realmente nos conhece… nos conhece. Tem gente que percebe quando o nosso riso muda de temperatura. Quando a gente pára de ocupar espaço. Quando começa a sobreviver baixinho. Eu tive momentos ruins pra caramba. Outros ainda piores. Mas também tive colo. O carinho das minhas amigas. A mão do meu irmão quando eu não conseguia andar...