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Caminhada

 

Era pra estarmos saindo pra caminhar. Ou pra nos abraçarmos agora e resolvermos ficar mais um pouco na cama.
Mas já é o segundo domingo sem você aqui.
Essa nova realidade é cruel e solitária.
Quanto ainda queríamos fazer juntos? Quanto ainda queríamos realizar?
Quantos sonhos ainda tínhamos por sonhar?
Todos dizem que vai ficar mais fácil.
Mas a cada dia de espera, eu tenho mais certeza que você não vai voltar. E o buraco no meu coração parece crescer mais.
Quando percebo que não vamos juntos ver as meninas crescerem, não vamos juntos curtir nossa casa, não vamos juntos viajar, não vamos juntos brincar com nossos cachorros, não vamos juntos tomar café, não vamos juntos assistir uma série, não vamos juntos tomar um banho, não vamos juntos dormir, não vamos juntos acordar… é um sofrimento. Cada pequena descoberta dessa é um sofrimento.
Porque o luto é estranho por isso. Você é confrontado o tempo todo pela realidade imposta: fisicamente essa pessoa nunca mais estará aqui. E tem que lidar o tempo todo com a crueldade dessa nova realidade e com a saudade imensa que toda hora te devasta.
Eu não acreditava em luto.
Até me ver aqui: 37 anos, viúva, com toda minha vida longa e planejada arrancada de mim. Todos os inúmeros sonhos despedaçados. Toda minha rotina violentada.
Eu sou abençoada pelo imenso apoio que estou recebendo, pois sem ele já teria desistido. Mas isso não torna a situação menos violenta, cruel e traumática - meu coração e minha vida estão devastados.
E eu olho pra todos ao meu redor e vejo o mesmo - um monte de pessoas devastadas tentando colar os cacos dessa tragédia e seguir.
Não tá ficando mais fácil e eu só queria gritar alto que tá doendo pra ver se alguém lá do céu me ouve e me devolve ele. Rafa, me dê forças. Te amo.



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